Homilia durante a Concelebração Eucarística de 29 de abril de 2026
20º Encontro Nacional dos Presbíteros do Brasil
Aparecida – SP, 27 de abril – 1º de maio de 2026
Card. Lazzaro You Heung sik
Prefeito do Dicastério para o Clero
Queridos irmãos,
os textos da liturgia de hoje são de grande atualidade. Falam de trevas e luz, da força da Palavra de Deus e da orientação do Espírito, e nos apresentam uma figura extraordinária – Santa Catarina de Sena –, que soube socorrer a Igreja e a sociedade em um momento de grandes dificuldades.
O Evangelho nos falou de trevas e luz. Nós vivemos um momento dramático, em que vemos desabar a ordem mundial que, apesar de muitos limites, sustentou a vida da humanidade nestas últimas décadas; vemos crescer cada vez mais o abismo entre ricos e pobres, com populações inteiras expostas à fome e à miséria; e vemos o equilíbrio do planeta ameaçado. Ignora-se o grito do Papa Francisco: Fratelli tutti e Laudato si’, e é duramente criticado, com ataques injustos, os apelos do Papa Leão pela paz.
Vivemos um momento dramático também como Igreja, não só pelos tantos mártires do nosso tempo, mas também pela superficialidade e engano de uma antropologia que coloca no centro o indivíduo com seus impulsos e negligência a dimensão do transcendente. Enfrentamos tensões e polarizações em nossas comunidades, assistimos à diminuição das vocações e temos que nos arrepender pelo vergonhoso fenômeno dos abusos; experimentamos a dificuldade de transmitir a mensagem do Evangelho ao mundo de hoje e estamos abalados, infelizmente, também por fatos extremos, como as angústias que decepam a vida de irmãos nossos. Trevas! Justamente nessa situação nos alcançam as palavras de Jesus no Evangelho de hoje: «Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas», «não vim para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por mim» (Jo 12,46-47). E no versículo da aclamação ao Evangelho: «Eu sou a luz do mundo» (cf. Jo 8,12).
Jesus, a luz do mundo: Lux mundi! Esta frase é o meu lema episcopal. Lembro-me quando essa luz entrou em minha vida. Minha família não era cristã. Meu pai desapareceu durante a guerra da Coreia. Não tivemos mais notícias dele. Eu era adolescente e frequentava uma escola católica que tinha o nome do primeiro sacerdote da minha pátria: Santo André Kim. Fiquei fascinado por essa figura e, aos poucos, a luz do Evangelho abriu um caminho em mim, até que aos 16 anos fui batizado na véspera do Natal: foi o meu nascimento para a luz.
Nos anos seguintes, experimentei quão verdadeira é a Palavra de Jesus: «quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida». Quanto mais eu me doava aos outros, mesmo nos serviços simples, cada vez mais experimentava a alegria e me encontrava na luz.
Quando depois, como seminarista, tive que fazer três anos de serviço militar, sentia que não podia guardar essa luz para mim. Não havia serviços religiosos no quartel, muito menos a Santa Missa. Eu obtive dos meus superiores a permissão para realizar aos domingos um encontro sobre a Palavra de Deus. No início começamos em quatro. No final do ano vinte pessoas receberam o Batismo.
Um segundo assunto: Palavra e Espírito. São as duas realidades que estão presentes na Comunidade de Antioquia, segundo a leitura dos Atos dos Apóstolos. «Naqueles dias, a palavra de Deus crescia e se difundia» (12,24). «O Espírito Santo disse: “Separai para mim Barnabé e Saulo para a obra a que os chamei”. […]. Eles, pois, enviados pelo Espírito Santo, […] começaram a anunciar a palavra de Deus» (13,2-5).
Impressiona o papel que a Palavra e o Espírito desempenham na Igreja primitiva: são eles os protagonistas, os atores principais, mais que os líderes da comunidade, mais que Barnabé, Simeão e Lúcio, Manaém e Saulo. São a Palavra e o Espírito que indicam o caminho: não os planejamentos e os raciocínios humanos.
No Dicastério para o Clero – como também durante os 18 anos de episcopado na diocese onde trabalhei –, chegam muitos pedidos com todo tipo de problemas, questões muitas vezes complexas e grandes desafios. Eu procuro sempre escutar profundamente e me identificar com quem está à minha frente. Ao mesmo tempo, procuro estar atento ao Espírito Santo e peço sua ajuda. E depois digo poucas coisas, expressando convicções nascidas da experiência. Convido, muitas vezes, a colocar o foco na vida da Palavra e no “novo mandamento” de Jesus: o amor mútuo (cf. Jo 13,35; 15,12).
Pode parecer simplista proceder assim, mas na realidade – mesmo que depois se devam estudar os problemas –, não somos nós que resolvemos as coisas. Nós podemos dar um conselho, oferecer uma ajuda, mostrar proximidade, mas quem sabe resolver as questões na raiz é o Senhor, através da Palavra e do Espírito: a Palavra a ser colocada em prática, o Espírito a ser discernido e seguido. Como diz precisamente o versículo da aclamação ao Evangelho: «quem me segue terá a luz da vida»! A luz nasce da vida com Jesus, do compromisso de segui-Lo, deixando-se orientar por suas Palavras. E testemunha isso a alegria que nasce nas pessoas quando nos relacionamos assim com elas.
Estamos acostumados, como sacerdotes, a colocar no centro da nossa vida a Eucaristia. Talvez devamos dar a mesma atenção à Palavra de Deus, deixando-nos guiar pela Palavra e pelo Espírito!
Por fim, Santa Catarina de Sena. Catarina viveu em um período problemático, do ponto de vista civil, com contínuas intrigas e guerras fratricidas entre cidades inimigas; e problemático também do ponto de vista eclesial, com divisões na Igreja e o exílio do Papa em Avinhão.
Era jovem e mulher. Não sabia escrever e não tinha nenhuma posição de poder. Quando morreu, tinha apenas 33 anos. No entanto, muitas personalidades da Igreja e do mundo civil a seguiram: príncipes e bispos se consultavam com ela e seguiam seus conselhos. Ela deu uma contribuição decisiva à vida da Igreja do seu tempo e conseguiu fazer o Papa voltar a Roma.
Era sem dúvida uma mulher genial, além de santa. Atuou com coragem e interveio em tantas questões, mas a iniciativa e o segredo da incidência de sua ação vinham de Deus. Conta em seu famoso livro Diálogo com a Divina Providência que Jesus um dia lhe disse: «Torna-te capacidade e eu me farei torrente». Quer dizer: abre-te e deixa viver em ti a Palavra, e então de ti jorrarão rios de água viva (cf. Jo 7,38).
«Torna-te capacidade e eu me farei torrente»: um poderoso convite também para nós que vivemos neste tempo tão complexo e envolto em tantas trevas, mas no qual Jesus quer resplandecer como Luz.
«Torna-te capacidade e eu me farei torrente». Confiemo-nos então a Santa Catarina, cuja memória litúrgica hoje celebramos. Mas confiemo-nos de modo especial à Nossa Senhora Aparecida. Impressiona-me que a sua imagem, que está aqui neste grande Santuário, é tão pequena, mas sua ação é tão poderosa. E impressiona-me também o fato de que esta imagem foi jogada fora e depois reencontrada, quase por acaso, pelos pescadores no rio aqui próximo.
Animemo-nos, então, caríssimos irmãos e irmãs! Tornemo-nos praticantes da Palavra de Deus e atentos ao Espírito, para que Jesus, também através de nós, possa ser luz do mundo: luz do pequeno mundo das nossas comunidades, luz do mundo globalizado e da humanidade inteira!
