Chaves psicológicas e pastorais para o Sacramento da Reconciliação

Foi publicado, no final de 2025, um Guia prático para confessores, de 36 páginas, gratuito, com o subtítulo Chaves psicológicas e pastorais para o Sacramento da Reconciliação. Ele explora ideias para melhorar as confissões com algumas orientações simples de escuta, paciência, acolhida e uso de palavras adequadas.

 É o resultado de um trabalho de longo prazo impulsionado pela Universidade de Navarra e pela Fundação John Templeton, que estuda “a dimensão psicológica da experiência do perdão divino”. A Fundação Templeton apoia 10 equipes que estudam este fenômeno, e uma delas concentrou-se na confissão sacramental dos católicos, entrevistando com profundidade 25 sacerdotes de distintos movimentos, ambientes e países, mas que exercem o ministério em Espanha.

A equipe, liderada a partir da Universidade de Navarra pelos doutores Martiño Rodríguez-González e María Calatrava, estuda os elementos que ajudam ou dificultam a experiência do perdão no sacramento da Reconciliação. “A maneira de acolher, escutar e acompanhar pode abrir ou fechar o coração do fiel à experiência do perdão de Deus”, constata esta investigação.

Aprender a confessar bem… confessando-se!

Muitos confessores coincidem em que o fato de se confessarem, eles próprios, os ajuda a ser melhores ministros da misericórdia. “A minha experiência como penitente foi o fundamento do meu ser confessor”, declaram. Confessar-se com regularidade permite-lhes descobrir, de modo vivencial, quais atitudes ajudam verdadeiramente o penitente.

Eles próprios experimentaram “acolhida incondicional, uma atitude positiva e encorajadora, um trato que permita apresentar-se diante de Deus sem necessidade de dissimular o mal cometido”. Isso os ajuda a confessar assim. Têm reverência pelo sacramento: a ação de Deus e a intimidade do penitente tornam-no terra sagrada.

Privacidade, nem sempre anonimato

Os sacerdotes destacam que, para muitos penitentes, o anonimato — confessar-se atrás da grade — é importante. Se o sacerdote reconhece a voz, deve evitar fazer referências à identificação. “Quando a pessoa se confessa através do confessionário, não ajuda que se sinta reconhecida. O confessionário normalmente garante o anonimato, e é importante que isso seja respeitado”, detalha um sacerdote.

Alguns confessores assinalam que o contacto visual pode ajudar a gerar proximidade, enquanto outros consideram que a grade protege a intimidade e facilita que o penitente se abra. Em cada caso, o sacerdote deve discernir.

Mostrar disponibilidade, oferecer tempo

Outro aspeto decisivo para favorecer a experiência do perdão é a disponibilidade do confessor e o tempo que dedica ao penitente. A vivência do perdão na confissão é favorecida quando o sacerdote se mostra realmente acessível e disponível. Um primeiro sinal disso é que o sacerdote cumpra os horários de confissão, compareça e esteja disponível.

Depois, o confessor é chamado a conter a própria urgência e transmitir serenidade. Como expressava um entrevistado: “Posso ter muita pressa, mas contenho-me. Estou ali e, sem que se note, não olho para o relógio. O penitente deve sentir: estou aqui para ti, escuto-te com toda a minha atenção”.

Acolhida, inclusive fora do confessionário

Um elemento ainda mais decisivo é a acolhida calorosa e incondicional. Assim, o penitente pode abrir o seu coração com confiança e experimentar o perdão de Deus.

Esta atitude de acolhida começa antes mesmo de entrar no confessionário, como indicam os entrevistados. O sacerdote que, fora dele, se mostra próximo, amável, sorridente e disponível já desperta no penitente uma confiança inicial.

Muitos sacerdotes começam a confissão com uma oração que recorda que quem acolhe e escuta é Jesus: “Vinde a mim, vós que estais cansados e sobrecarregados”, rezam; ou ainda: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Estes recursos ajudam a situar o encontro na presença de Deus.

Manter a serenidade

Às vezes, o penitente relata coisas terríveis, ou fá-lo com grande emotividade e inquietação. O confessor deve manter a serenidade e confiar em Deus. Muitos sacerdotes destacam a importância de invocar o Espírito Santo antes e durante a confissão, pedindo luzes para saber orientar cada pessoa.

A oração ajuda o sacerdote a manter a calma: recorda que é Cristo quem age no sacramento. O confessor pode dizer ao penitente inquieto que “não há nada que possas apresentar a Deus que Ele não possa perdoar”. Isso ajuda a acalmar a sua ansiedade e facilita que a pessoa se abra.

Foco na misericórdia de Deus, não no pecado

O penitente confessa os seus pecados, mas o confessor deve colocar o foco em Deus e na sua misericórdia. Para isso, recorrerá a exemplos dos Evangelhos e insistirá em que Deus acolhe, abraça e restaura a amizade com o penitente. “O penitente deve sentir que, naquele mesmo momento, Deus o perdoa e o acolhe tal como é”, pede o relatório.

Propor penitências pequenas pode reforçar esta experiência de misericórdia, evitando que a pessoa se sinta desanimada ou sobrecarregada. A misericórdia não significa relativizar o pecado nem minimizar a sua gravidade. O penitente entende que pecou, e o confessor acompanha-o simultaneamente no reconhecimento do mal cometido e na aceitação do perdão divino, sem que isso se converta em censura.

Do mesmo modo, a misericórdia não deve transformar-se em superproteção; o confessor deve também acompanhar o penitente rumo à conversão e ao crescimento, indicando, quando necessário, mudanças concretas de vida, sempre com respeito e empatia.

Evitar críticas duras

A psicologia mostra que, diante de críticas duras em estados de vulnerabilidade, a reação mais comum é a fuga. Tais reações não favorecem a aprendizagem nem a reconciliação, mas reforçam sentimentos de vergonha e resistência. Por isso, os confessores devem preferir comentários e perguntas orientadoras, sem caráter acusatório.

Por exemplo, se dizem: “o senhor sempre cai no mesmo, parece que não quer mudar”, soará como reprovação e desanimará. Mas pode-se formular assim:
Vejo que este pecado lhe pesa e volta a aparecer na sua vida com certa frequência; o que poderia ajudá-lo a enfrentá-lo de outro modo?

Dar conselhos práticos?

Podem ser úteis os conselhos práticos do confessor, como recomendar leituras ou livros, ou sugerir estratégias concretas para superar pecados específicos. No entanto, convém ter cuidado para não impor soluções fechadas que limitem a liberdade do penitente, nem saturá-lo com demasiadas palavras ou sermões. Os sacerdotes consultados consideram que o mais eficaz costuma ser concentrar-se no essencial: a reconciliação com Deus e a sua alegria.

Aspetos psíquicos do penitente que bloqueiam o sentir-se perdoado

Os sacerdotes querem transmitir o perdão de Cristo, mas há penitentes que não conseguem experimentá-lo a nível psicológico, o que limita o seu poder transformador e sanador.

  • Os que têm má autoimagem: se, desde pequeno, alguém ouviu repetidamente “és mau”, terá dificuldade em aceitar o perdão. A história pessoal influencia muito, assim como as feridas. Os confessores podem ajudar essas pessoas a distinguir a sua identidade profunda (ser filhos de Deus) das suas ações.
  • O Deus castigador e distante: muitos veem Deus como juiz implacável, o que dificulta profundamente a vivência do perdão e reforça o medo e a desconfiança. A confissão pode tornar-se libertadora quando o penitente descobre que Deus não é прежде de tudo um juiz, mas um Pai próximo e misericordioso.
  • O penitente perfeccionista: tende a superdimensionar cada erro e vivê-lo com dureza excessiva. Convém centrar-se em metas alcançáveis e distinguir entre falhas ocasionais e traços de caráter mais estáveis.
  • O penitente frívolo: que não pensa nas consequências. O confessor pode propor perguntas reflexivas que o ajudem a tomar consciência do impacto do seu comportamento.

O caso peculiar das pessoas escrupulosas

Não há muitos cristãos escrupulosos. Mas os que há confessam-se com frequência e com pouco fruto. O relatório propõe “romper a ideia de perfeição absoluta”, suavizando a rigidez e libertando de exigências impossíveis.

Sugere confessá-los com uma periodicidade fixa, para evitar a compulsão, e animá-los a comungar se não houver certeza de pecado mortal. Recomenda também formas de oração que evitem a ruminação mental, como a oração vocal, a leitura espiritual ou a partilha da fé com outros cristãos. Alguns casos podem necessitar de ajuda psicológica.

A confiança no confessor habitual

Pode-se confessar com qualquer sacerdote desconhecido, e o sacramento atuará. Contudo, a psicologia constata um fator terapêutico eficaz em confessar-se regularmente com o mesmo sacerdote, que conhece e acompanha o penitente e com quem existe confiança.

O acompanhamento espiritual prolongado, baseado na confiança e na escuta atenta, potencia a aceitação pessoal, o autoconhecimento e a cura das feridas”, afirma o estudo — advertindo, no entanto, para possíveis desvios, como paternalismos exagerados ou dependências emocionais.

O relatório menciona apenas um santo, São Josemaria Escrivá (por incentivar o penitente a continuar a confessar-se), e recomenda um livro tanto para penitentes como para confessores: Deuses feridos: os sete anseios do coração humano, de Gregory K. Popcak, que ajuda a conhecer os próprios anseios e a utilizá-los para servir a Deus.

Publicado em  Religion en Libertad

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