Homilia de D. José Maria Pereira – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Sinceridade: “Sim, Sim; Não, Não”.

Dom José Maria Pereira

Na Liturgia deste domingo, continua a leitura do chamado “Sermão da Montanha” de Jesus,
que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus. Depois das “Bem-Aventuranças”,
que são o seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei, a sua Torá, como a chamam os
nossos irmãos judeus. Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer, também, a
Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim
abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim para os levar à perfeição”. No
texto do Evangelho (Mt 5, 17-37), lemos que Ele não veio destruir a antiga Lei, mas dar-lhe a
sua plenitude; restaura, aperfeiçoa, e eleva a uma ordem superior os preceitos do Antigo
Testamento. Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão, diante da Lei
de Deus, e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. O que Jesus deseja é a
perfeição da Lei, realmente, uma observância do coração: não simplesmente matar,
fisicamente, mas evitar matar psicológica e moralmente o irmão por desprezo, depreciação e
inveja. Não basta não cometer adultério; é preciso também não alimentar, no coração, a
cobiça por mulher casada ou homem casado, e ser fiel ao compromisso assumido no
casamento (Mt 5, 27). No matrimônio, não se pode pensar só em si mesmo; é uma vocação,
uma entrega de vida, total doação um ao outro; é uma vocação em que os dois deverão
enfrentar os desafios, sofrimentos e crises juntos. Observar a Lei, não significa reduzi-la a
cultos de observâncias, mas, exige uma contínua conversão interior que inspire o amor, a
justiça, a misericórdia e as relações fraternas, numa simplicidade de criança.
Só em Deus poderemos conseguir a luz e a força, para alcançarmos o procedimento ideal que
nos conduzirá à verdadeira liberdade e à plena felicidade.
Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes
princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus desenvolve-as, aprofundando o espírito
dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas
materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor.
Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-
37). Isso, em relação à vida, à felicidade, ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por
exemplo, não matar; é preciso, também, evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de
desprezo para com o próximo. Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso
eliminar, também, os maus pensamentos e os maus desejos, porque, quem os consente, já
pecou, no “seu coração” (Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério.
Quanto ao adultério, Jesus insiste na interioridade e fidelidade matrimonial, apelando ao amor
verdadeiro e leal. As pessoas que se deixam levar pelos instintos, podem provocar graves
problemas a si próprias, às suas famílias e aos outros, pelo que é preciso ter coragem para
saber cortar pela raiz determinadas situações que possam vir a causar posteriores
contratempos.
É preciso superar a lei antiga, aperfeiçoá-la, isto é, tendo uma delicada atenção à pureza
interior… Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer também a Revelação definitiva
da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os

Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim, para os levar à perfeição”. E, dirigindo-se aos seus
discípulos, acrescenta: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não
entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17.20). Em que consiste essa “plenitude” da Lei de Cristo,
essa justiça “superior” que Ele exige?
Jesus explica-o mediante uma série de antíteses entre os Mandamentos antigos e o seu modo
de os repropor. Cada vez começa: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…”, e, então, afirma:
“Mas Eu vos digo…”. Por exemplo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás, mas
quem matar será castigado pelo juízo do tribunal; mas Eu vos digo: todo aquele que se irar
contra seu irmão será castigado pelos juízes” (Mt 5, 21-22). E, assim, por seis vezes. Este modo
de falar causava grande impressão no povo, que permanecia assustado, porque aquele, “Eu
vos digo,” equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade
de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo “completa” os Mandamentos
com o Amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita n’Ele. E nós, através da fé em
Cristo, podemos abrir-nos à obra do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor
divino. Por isso, cada preceito se torna verdadeiro, como exigência de amor, e todos
convergem num único Mandamento: ama a Deus com todo o coração, e ao teu próximo como
a ti mesmo. “ O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, escreve São Paulo (Rm 13, 10).
“Se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus…” (Mt 5, 20). Não se trata da virtude da
justiça que leva a “dar a cada um aquilo que lhe pertence”. Aqui podia traduzir-se por
santidade; a dos escribas é meramente externa e ritualista. Entre eles, o cumprimento exato,
minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se convertido numa garantia de salvação do
homem diante de Deus: “se eu cumpri isto, sou justo, sou santo e Deus tem que me salvar”.
Com esse modo de conceber a justificação, já não é Deus fundamentalmente quem salva, mas
vem a ser o homem quem se salva pelas suas obras externas. A justificação ou santificação é
uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua
fidelidade a essa graça.
“Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério
com ela, no seu coração. Se teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o
para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser
jogado no inferno” (Mt 5, 28-29). A Lei de Moisés proibia o desejar uma mulher casada (Ex 20,
17); Jesus reprova todo o olhar pecaminoso dirigido a qualquer mulher. O desejo, de que aqui
se fala, pressupõe o consentimento com a advertência na maldade desses atos impuros. Por
olho direito e mão direita entendemos tudo aquilo que nos é mais caro, a que temos de estar
dispostos a renunciar, para não ofender a Deus.
Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). O cristão é
chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só
não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum.
Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor. O demônio é o “pai da mentira” (Jo 8, 44).
Portanto, na Igreja de Cristo, não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no
engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as
suas relações na verdade.
Jesus quer inculcar a sinceridade sempre: “sim, sim; não, não!” Se partirmos do princípio da
sinceridade, há confiança mútua nas relações humanas e jurar torna-se coisa supérflua; jurar a
torto e a direito é um sintoma de falta de sinceridade entre as pessoas.

A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações
humanas. Deus Pai apenas exige um relacionamento em que as pessoas sejam verdadeiras e
responsáveis.
E nós, como observamos os Mandamentos? Com o espírito do Antigo Testamento? (fazer isto
ou aquilo porque é lei, porque é “obrigado”?)
Por que vou à Missa? Por que é um preceito?
“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não
entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).
“Quem me ama, guarda os meus mandamentos”, disse Jesus.
Seja a nossa observância uma expressão sincera e profunda do nosso amor para com Deus.
Peçamos a Deus a Graça de vivermos os seus mandamentos. “Se quiseres observar os
mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16). “A
vida e a morte, o bem e o mal, estão diante do homem; o que ele escolher, isso será dado”
(Eclo 15, 16-18). É como quem diz: o que seguir a lei divina, terá como recompensa a vida e o
que não a seguir, espera-o a morte. Tanto a vida como a morte eterna são a consequência da
sua opção. O homem é livre e, por isso, responsável das suas ações…
Peçamos a Jesus Cristo a graça de sermos instrumentos de vida, não de morte. Sempre
instrumentos de união, e não de separação. Sempre garantia da verdade, e não da incerteza
ou mentira.
Invoquemos a Virgem Maria! Graças à sua união com Jesus, a sua justiça foi perfeita: é por isso
que a invocamos como “Espelho da Justiça”. Confiemo-nos a Ela, para que guie, também, os
nossos passos, na fidelidade à Lei de Cristo.

Dom José Maria Pereira

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