Homilia de Dom José Maria – Solenidade da Epifania do Senhor

Quais os Ensinamentos dos Reis Magos!?

Dom José Maria Pereira

Com alegria, hoje, celebramos a Epifania do Senhor, isto é, a sua manifestação aos povos do
mundo inteiro, representados pelos Magos, que vieram do Oriente, para homenagear o Rei
dos Judeus.  Os Magos representam todas as línguas e nações que se põem a caminho,
chamados por Deus, para adorar Jesus (Mt 2, 1-12). Celebramos, hoje, Cristo, Luz do mundo, e
a sua manifestação às nações. Desde o seu primeiro surgimento, então, a luz de Cristo começa
a atrair a si os homens “que Deus ama” (Lc 2, 14), de todas as línguas, povos e culturas. É a
força do Espírito Santo que suscita os corações e as mentes a buscar a verdade, a beleza, a
justiça e a paz. É quanto São João Paulo ll afirma na Encíclica Fides et Ratio: “O homem se
encontra num caminho de busca, humanamente infindável: busca da verdade e busca de uma
pessoa em quem poder confiar” (33): os Magos encontraram ambas essas realidades, no
Menino de Belém. No dia de Natal, a mensagem da liturgia ressoava assim: “Hoje uma grande
luz desce sobre a Terra”. Em Belém, esta “grande luz” apareceu a um pequeno grupo de
pessoas, um minúsculo “resto de Israel”: a Virgem Maria, o seu esposo José e alguns pastores.
Uma luz humilde, como faz parte do estilo do Deus verdadeiro; uma chama pequena, acendida
na noite: um frágil recém-nascido, que geme, no silêncio do mundo… Mas, aquele
acontecimento escondido e desconhecido era acompanhado, pelo hino de louvor, pelas
multidões celestes, que cantavam glória e paz (Lc 2, 13-14).
Os homens e as mulheres, de todas as gerações, na sua peregrinação, têm necessidade de
ser orientados: então, qual estrela podem seguir? Depois de pairar sobre “o lugar, onde estava
o Menino” (Mt 2, 9), a estrela, que guiou os Magos, concluiu a sua função, mas a sua luz
espiritual está sempre presente na Palavra do Evangelho, que, também, hoje, é capaz de guiar
todos os homens até Jesus. Essa mesma palavra, que não é senão o reflexo de Cristo,
verdadeiro homem e verdadeiro Deus, é ressoada, competentemente, pela Igreja, em cada
alma, bem disposta. Por conseguinte, também a Igreja desempenha a missão da estrela, em
prol da humanidade. Mas, algo semelhante pode-se dizer, de cada cristão, que é chamado a
iluminar, com a palavra e o testemunho da vida, os passos dos irmãos. Como é importante,
então, que nós, cristãos, sejamos fiéis à nossa vocação! Todo o crente autêntico está sempre a
caminho, no próprio e no pessoal itinerário de fé e, ao mesmo tempo, com a pequena luz que
traz dentro de si, pode e deve servir de ajuda para quem se encontra ao seu lado e, talvez,
sente dificuldade de encontrar a estrada que conduz a Cristo.
Nos Reis Magos, vemos milhares de almas, de toda a terra, que se põem a caminho para
adorar o Senhor. Passaram-se vinte séculos desde aquela primeira adoração, e esse longo
desfile, do mundo inteiro, continua chegando a Cristo.
A festa da Epifania incita todos os fiéis a partilharem dos anseios e fadigas da Igreja, que “ora e
trabalha, ao mesmo tempo, para que a totalidade do mundo se incorpore ao Povo de Deus,
Corpo do Senhor e Templo do Espírito Santo” (LG 17). Nós podemos ser daqueles que, estando
no mundo, imersos nas realidades temporais, viram a estrela de uma chamada de Deus e são
portadores dessa luz interior que se acende em consequência do trato diário com Jesus.
Sentimos, pois, a necessidade de fazer com que muitos indecisos ou ignorantes se aproximem
do Senhor e purifiquem a sua vida.

A Epifania é a festa da fé e do apostolado da fé. “Participam desta festa tanto os que já
chegaram à fé como os que procuram alcançá-la. Participa desta festa a Igreja, que cada ano se
torna mais consciente da amplitude da sua missão. A quantos homens é necessário levar,
ainda, a fé! Quantos homens é preciso reconquistar para a fé que perderam, numa tarefa que
é, às vezes, mais difícil do que a primeira conversão! No entanto, a Igreja, consciente desse
grande dom, o dom da Encarnação de Deus, não pode deter-se, não pode parar nunca. Deve
procurar, continuamente, o acesso a Belém para todos os homens e para todas as épocas. A
Epifania é a festa do desafio de Deus” (São João Paulo ll, Homilia 6-l-1979).
A Epifania recorda-nos que devemos esforçar-nos, por todos os meios ao nosso alcance, para
que todos os nossos amigos, familiares e colegas aproximem-se de Jesus.
Os Magos, seguindo a estrela, encontraram o lugar onde estava o Salvador com Maria e José. E
voltaram às suas regiões por outro caminho.
Quem encontra Jesus Cristo muda de caminho. Toma outro caminho. Um caminho novo, o
caminho de Jesus Cristo que se apresenta como o Caminho. O encontrar Deus no menino
transforma a vida das pessoas. Já não podem voltar a Herodes. Voltaram por outro caminho à
sua região. Importa seguir a estrela que pousará onde está Jesus Cristo. Precisamos estar
atentos à estrela. A estrela são todos os sinais de Deus para que encontremos o Messias
Salvador: a Palavra de Deus, os Sacramentos, o Magistério da Igreja, uma boa palavra do
sacerdote ou de pessoas amigas, os acontecimentos da vida.
Os Magos seguiram a estrela. Não duvidaram, porque sua fé era sólida, firme; não titubearam
perante a fadiga de tão longa viagem, porque o seu coração era generoso. Não adiaram a
viagem, para mais tarde, porque tinham alma decidida. É importante aprender dos Magos a
virtude da perseverança: mesmo durante o tempo em que a estrela se ocultou, aos seus
olhares, continuaram à procura do Menino! Também nós devemos perseverar, na prática das
boas obras, mesmo durante as mais obscuras trevas interiores. É a prova do espírito, que
somente pode ser superada, num intenso exercício de fé. Sei que Deus assim o quer, devemos
repetir nesses momentos: Sei que Deus me chama, e isso basta! “Sei em quem pus a minha
confiança” (2Tm 1, 12).
Sejamos estrelas que vão indicando o caminho ao próximo para que ele encontre o Messias
Salvador. Há muitas maneiras de sermos estas estrelas, dando testemunho de Jesus Cristo.
Isso na família, na Igreja e na sociedade. Que, na festa da Epifania, deixemo-nos guiar pela
estrela, iluminar por ela, e poderemos ser luz para os outros.
Voltemos aos Magos do Oriente! Eles eram, também e sobretudo, homens que tinham
coragem; tinham a coragem e a humildade da fé. Era preciso coragem a fim de acolher o sinal
da estrela, como uma ordem para partir, para sair rumo ao desconhecido, ao incerto, por
caminhos, onde havia inúmeros perigos à espreita. Podemos imaginar que a decisão destes
homens tenha provocado sarcasmo: o sarcasmo dos ditos realistas que podiam apenas zombar
das fantasias destes homens. Quem partia baseado em promessas tão incertas, arriscando
tudo, só podia aparecer como ridículo. Mas, para estes homens, tocados, interiormente, por
Deus, era mais importante o caminho, segundo as indicações divinas do que a opinião alheia.
Para eles, a busca da verdade era mais importante que a zombaria do mundo, aparentemente
inteligente.
A estrela mostrava aos magos o roteiro de Deus: o caminho que Deus indicava, e não
desviaram disso o coração. A estrela marcou-lhes, inicialmente, a direção, revelou-lhes o

destino, estimulou-os na partida, mas depois desapareceu. Como tinham capitado a
mensagem de Deus, não hesitaram. Continuaram, mesmo sem ver nada. Perseveraram até o
fim.
Em qualquer momento de crise, de dificuldade ou de cansaço, há que lembrar: o importante é
chegar. Os sacrifícios aceitam-se, facilmente, quando a recompensa vale a pena. Quanto vale a
recompensa que Deus promete aos que lhe são fiéis!
Quanto nos sugere o exemplo dos Magos! Peçamos a graça de viver, na presença de Deus,
porque entendemos qual é a nossa vocação e a nossa missão, nesta terra. Toda a nossa vida é
caminho até Deus. Um caminho que se percorre à luz da fé.
A viagem dos magos converte-se em emblema da vida cristã, entendida como desapego, busca
e seguimento. Só interessava ir até Jesus. Dão-nos lição, de verdadeira fé. Importa é Deus, que
se deixa encontrar por quem O busca de coração sincero. E Deus sempre cumula, de alegria, os
que procuram ser fiéis, especialmente, se a fidelidade lhes custa. Devemos estar disponíveis,
estar prontos a deixar-nos guiar pela fé.
Queridos irmãos e irmãs, detenhamo-nos, também nós, idealmente, diante do ícone da
adoração dos Magos. Ele contém uma mensagem exigente e sempre atual. Exigente e sempre
atual, antes de tudo, para a Igreja que, espelhando-se em Maria, está chamada a mostrar Jesus
aos homens, nada mais do que Jesus. De fato, Ele é o Tudo e a Igreja existe, unicamente, para
permanecer unida a Ele e dá-Lo a conhecer ao mundo. Ajude-nos a Mãe do Verbo encarnado a
sermos discípulos dóceis, do seu Filho, Luz das nações.
Mais uma vez, sentimos, em nós, um profundo reconhecimento, por Maria, a Mãe de Jesus.
Ela é a imagem perfeita da Igreja que doa ao mundo a luz de Cristo: é a Estrela da
evangelização. Diz-nos São Bernardo: “olha para a Estrela”, tu que vais à procura da verdade e
da paz; dirige o olhar para Maria, e ela te mostrará Jesus, luz para cada homem e para todos os
povos.
Peçamos à Virgem Maria que nos conduza ao seu Filho Jesus. Os Reis Magos tiveram uma
estrela. Nós temos Maria!

Dom José Maria Pereira

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