Jesus indica o Caminho para ser Feliz!
Dom José Maria Pereira
Diante de grande multidão, Jesus traça uma imagem espiritual do discípulo. Fala da
felicidade – bem-aventurado é o mesmo que feliz –, promete-a e indica o caminho para a
conseguir.
O Evangelho (Mt 5, 1- 12a) apresenta o primeiro grande discurso que o Senhor dirige ao povo:
“Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus
começou a ensiná-los”. Jesus, novo Moisés, “toma o seu lugar, na ‘cátedra’ da montanha,” e
proclama “bem-aventurados” os pobres em espírito, os aflitos, os misericordiosos, quantos
têm fome de justiça, os puros de coração e os que são perseguidos (Mt 5, 3-10). Não se trata
de uma nova ideologia, mas de um ensinamento que vem do Alto e diz respeito à condição
humana, precisamente aquela que o Senhor, encarnando, quis assumir para a salvar. Por isso,
“o Sermão da Montanha é dirigido ao mundo inteiro, no presente e no futuro… E só pode ser
compreendido e vivido no seguimento de Jesus, no caminho com Ele” (Bento XVl, Jesus de
Nazaré, p. 92). As Bem-Aventuranças constituem um novo programa de vida, para nos
libertarmos dos falsos valores do mundo, e nos abrirmos aos bens verdadeiros, presentes e
futuros.
O texto do Evangelho das bem-aventuranças constitui um resumo do Sermão da Montanha e
de todo o Evangelho de Jesus Cristo. É esta a ocasião que Jesus aproveita para traçar uma
imagem profunda do verdadeiro discípulo.
Provavelmente, muitos, dentre a multidão, ficaram desconcertados com as bem-aventuranças,
ou até decepcionados. Elas têm um aspecto surpreendente. Afinal, o mundo ensina: bem-
aventurados os que têm muitos bens, pois podem satisfazer os seus desejos; bem-aventurados
os fortes, pois impõem a sua vontade; bem-aventurados os que gozam a vida, pois têm todos
os prazeres que desejam.
Que contraste com o caminho de felicidade para Jesus! Ele proclama felizes as pessoas que o
mundo chamaria de infelizes. Quem tem razão, o mundo ou Cristo? Cristo, claro! Mas, como
todos estamos um pouco contagiados pela mentalidade mundana, as palavras de Jesus são um
forte apelo à conversão, concretamente, dos nossos valores, atitudes e planos.
“Bem-aventurado” significa feliz, ditoso, e em cada uma das Bem-Aventuranças Jesus começa
por prometer a felicidade e por indicar os meios para consegui-la. Por que Jesus começa
falando da felicidade? Porque em todos os homens há uma tendência irresistível para serem
felizes; esse é o fim que têm em vista em todos os seus atos; mas muitas vezes buscam a
felicidade no lugar em que ela não se encontra, em que só acharão tristeza.
“Jesus começou a ensiná-los: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino
dos Céus” (Mt 5, 2-3).
A atitude fundamental, exigida para participar do Reino dos Céus, é a pobreza em espírito.
Pobre em espírito é todo aquele que tem a atitude de confiança da criança em relação a seus
pais. Pobre em espírito é quem coloca toda a sua confiança no Senhor. É o que não coloca sua
segurança nos bens materiais, na glória e na fama, mas em Deus. O cristão considera-se,
diante de Deus, como um filho pequeno que não tem nada em propriedade; tudo é de Deus,
seu Pai, e a Ele o deve. A pobreza em espírito, quer dizer, a pobreza cristã, exige o
desprendimento dos bens materiais e austeridade no uso deles.
O espírito de pobreza, a fome de justiça, a misericórdia, a pureza de coração, o suportar
injúrias por causa do Evangelho são aspectos de uma única atitude da alma: o abandono em
Deus, a confiança absoluta e incondicional no Senhor.
Em geral, o homem antigo, mesmo no povo de Israel, procurava a riqueza, o gozo, a estima, o
poder e considerava tudo isso como a fonte de toda a felicidade. Jesus traça um caminho
diferente. Exalta e abençoa a pobreza, a doçura, a misericórdia, a pureza, a humildade.
Com as Bem-aventuranças, o pensamento fundamental que Jesus queria inculcar nos ouvintes
era este: só o servir a Deus torna o homem feliz.
O conjunto de todas as Bem-aventuranças traça, pois, um único ideal: o da santidade. Ao
escutarmos, hoje, novamente, essas palavras do Senhor, reavivamos em nós esse ideal, como
eixo de toda a nossa vida. Como nos diz o Apóstolo S. Paulo: “Esta é a vontade de Deus: a
vossa santificação” (1Ts 4, 3). Chama cada um à santidade e a cada um pede amor: a jovens e a
velhos, a solteiros e a casados, aos que têm saúde e aos enfermos, a cultos e a ignorantes;
trabalhem onde trabalharem, estejam onde estiverem.
Sejam quais forem as circunstâncias por que atravessemos, na vida, temos que sentir-nos
convidados a viver em plenitude a vida cristã. Não pode haver desculpas, não podemos dizer a
Deus: “Esperai, Senhor, que se solucione este problema, que me recupere desta doença, que
deixe de ser caluniado ou perseguido…, e, então, começarei de verdade a buscar a santidade”.
Seria um triste engano não aproveitarmos precisamente essas circunstâncias duras para nos
unirmos mais a Deus.
“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem…Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5, 11-12). Assim, como nenhuma coisa
da terra nos pode proporcionar a felicidade que todos procuramos, assim nada nos pode tirá-
la, se estivermos unidos a Deus. A nossa felicidade e a nossa plenitude procedem de Deus.
Peçamos ao Senhor que transforme as nossas almas, operando uma mudança radical nos
nossos critérios sobre a felicidade e a infelicidade.
Seremos, necessariamente, felizes, se estivermos abertos aos caminhos de Deus, em nossas
vidas. Quando os homens, para encontrarem a felicidade, experimentam caminhos diferentes,
do da vontade de Deus, diferentes, daquele que o Mestre nos traçou, no fim, só encontram
solidão e tristeza. Longe do Senhor, só se colhem frutos amargos e, de uma forma ou de outra,
acaba-se como o filho pródigo, enquanto esteve longe da casa paterna: comendo bolotas e
cuidando de porcos (Lc 15, 11-32).
São felizes aqueles que seguem o Senhor, aqueles que lhe pedem e fomentam dentro de si o
desejo de santidade.
Ora, Jesus quer mostrar que a verdadeira felicidade não se encontra, onde o mundo a busca,
ou seja, na riqueza, no poder, nos prazeres, mas, a felicidade está na união com Deus.
Portanto, confiar a vida ao caminho indicado por Deus e não se deixar seduzir pelo encanto
perverso do mal. As bem-aventuranças são as disposições interiores e a conduta moral de
quem deseja seguir Jesus Cristo.
Quando nos falta a alegria, com certeza, é porque não procuramos a Deus, de verdade, no
trabalho, naqueles que nos rodeiam, nas dificuldades. Não será, talvez, porque ainda não
estamos inteiramente desprendidos? “Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor”!
As bem-aventuranças valem como caminho a ser trilhado, pelos discípulos de Jesus. Ainda que,
se concretizem de modo diverso, segundo a vocação e a condição de cada um. Certamente,
exigem a graça de Deus e muita luta pessoal interior.
O Evangelho das Bem-Aventuranças comenta-se com a própria história da Igreja, a história da
santidade cristã, porque – como escreve São Paulo – “Deus escolheu o que o mundo considera
como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que o mundo considera como
fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem
importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade
do que é considerado importante, para que ninguém possa gloriar – se diante dele.”
(1Cor1,27-28). Por isso, a Igreja não teme a pobreza, o desprezo e a perseguição numa
sociedade com frequência atraída pelo bem-estar material e o poder mundano. Santo
Agostinho recorda-nos que “não é útil padecer tais males, mas suportá –los pelo nome de
Jesus, não apenas com o espírito tranquilo, mas também com alegria”.
Permanecem como estímulo as promessas, em cada bem-aventurança e a promessa final:
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.
Invoquemos a Virgem Maria, a Bem – Aventurada por excelência, pedindo a força para
procurar o Senhor e para O seguir, sempre, com alegria, no caminho das Bem – Aventuranças.
Dom José Maria Pereira
