Homilia do D. José Maria Pereira – XXI Domingo do Tempo Comum – Ano A

Jesus Continua Perguntando-nos: Quem Sou Eu? 

Dom José Maria Pereira

 O Evangelho (Mt 16, 13-20) apresenta-nos Jesus, com os seus discípulos, em Cesareia de Filipe. Enquanto caminham, Jesus pergunta aos Apóstolos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” E, depois que eles apresentaram as várias opiniões que as pessoas tinham, Jesus pergunta-lhes diretamente: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Simão Pedro respondeu, formulando a primeira confissão de fé: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. A fé vai mais longe que os simples dados empíricos ou históricos, e é capaz de apreender o Mistério da Pessoa de Cristo na sua profundidade.

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. A esta profissão de fé da parte de Pedro, Jesus responde: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do Inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt16, 18 – 19). É a primeira vez que Jesus fala da Igreja, cuja missão é a realização do grandioso desígnio de Deus, de reunir, em Cristo, toda a humanidade, numa única família. A missão de Pedro e dos seus sucessores é, precisamente, a de servir esta unidade da única Igreja de Deus, formada por judeus e pagãos, de todos os povos; o seu ministério, indispensável, consiste em fazer com que ela nunca se identifique com uma única nação, nem com uma só cultura, mas que seja a Igreja de todos os povos, para tornar presente, no meio dos homens, marcados por inúmeras divisões e contrastes, a paz de Deus e a força renovadora do seu Amor. Por conseguinte, servir a unidade interior que provém da paz de Deus, a unidade de quantos em Jesus Cristo se tornaram irmãos e irmãs: eis a missão especial do Papa, Bispo de Roma e sucessor de Pedro.

A fé, porém, não é fruto do esforço do homem, da sua razão, mas é um dom de Deus: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu”. Tem a sua origem na iniciativa de Deus, que nos desvenda a sua intimidade e nos convida a participar da sua própria vida divina. A fé não se limita a proporcionar alguma informação sobre a identidade de Cristo, mas supõe uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com a sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação que Deus faz de Si mesmo. Desse modo, a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”, no fundo está impelindo os discípulos a tomarem uma decisão pessoal em relação a Ele. Fé e seguimento de Cristo estão intimamente relacionados.

Disse São João Paulo II, em 1980: “Todos nós conhecemos esse momento em que já não basta falar de Jesus repetindo o que os outros disseram, em que já não basta referir uma opinião, mas é preciso dar testemunho, sentir-se comprometido pelo testemunho dado e depois ir até aos extremos das exigências desse compromisso”. Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivadas: “Para você, quem sou Eu?” Todo o futuro de uma vida “depende da nossa resposta nítida e sincera, sem retórica nem subterfúgios, que se possa dar a essa pergunta”.

Essa pergunta encontra particular ressonância no coração de Pedro, que, movido por uma graça especial, respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Jesus chama-o bem-aventurado (Feliz és tu, Simão…) por essa resposta cheia de verdade, na qual confessou abertamente a divindade d’Aquele em cuja companhia andava há vários meses. Esse foi o momento escolhido por Cristo para comunicar ao seu Apóstolo que sobre ele recairia o Primado de toda a sua Igreja: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”(Mt 16,19).

Pedro confessou sua fé no Cristo, Filho de Deus vivo, graças à escuta de sua palavra e à cotidiana convivência. O Discípulo reconheceu o Messias porque a revelação do Pai encontrou nele abertura e acolhida. Quer dizer, descobre a verdade dos desígnios de Deus quem se deixa iluminar pela luz da fé. Com razão, reconhece o Documento de Aparecida: “A fé em Jesus como o Filho do Pai é a porta de entrada para a Vida.”  Como discípulos de Jesus, confessamos nossa fé com as palavras de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (DAp, 100). A fé é um dom de Deus, é uma adesão pessoal a Ele.

“Tu és o Messias. O Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Com estas palavras, Pedro, interrogado juntamente com os outros discípulos pelo Mestre, sobre a fé n’Ele, expressa em síntese o tesouro que a Igreja, através da sucessão apostólica, guarda, aprofunda e transmite há dois mil anos.

Crer só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Concentremos toda nossa atenção acerca das duas perguntas de Jesus: “No dizer do povo quem é o Filho do Homem?” Ele, o Vivente, está ainda em condições de interrogar os homens. Não é, por isso, uma ficção do espírito se aquelas perguntas as ouvimos como dirigidas a nós, aqui, agora.

O povo, quem diz que Eu seja? O povo (literalmente: “os homens”) compreende, aqui, aqueles de fora, aqueles que ouviram falar de Jesus ou O viram, mas não aderiram a Ele. Tem, talvez, necessidade de nós o Senhor para saber o que pensam dele os homens? Não, certamente, aquela pergunta serve antes para nós que cremos. Para alguma finalidade que devemos descobrir em seguida, Jesus estimula-nos, portanto, a indagar o que dizem dele os homens, nossos contemporâneos.

Para dar uma resposta convincente de fé, os cristãos precisam conhecer a fundo Jesus Cristo, saber sempre mais sobre sua pessoa e obra, pela leitura e meditação dos Evangelhos e pelos encontros com Ele por meio da ação litúrgica, em particular, dos Sacramentos.

“Tu és Pedro…”. Pedro será a rocha, o alicerce firme sobre o qual Cristo construirá a sua Igreja, de tal maneira que nenhum poder poderá derrubá-la. E foi o próprio Senhor que quis que ele se sentisse apoiado e protegido pela veneração, amor e oração de todos os cristãos. Se desejamos estar muito unidos a Cristo, devemos estar, sim, em primeiro lugar, a quem faz as suas vezes aqui na terra. Ensinava São Josemaria Escrivá: “Que a consideração diária do duro fardo que pesa sobre o Papa e sobre os bispos, te leve a venerá-los, a estimá-los com a tua oração” (Forja, 136).

O nosso amor pelo Papa não é apenas um afeto humano, baseado na sua santidade, simpatia, etc. Quando vamos ver o Papa, escutar a sua palavra, fazemo-lo para ver e ouvir o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra”, na expressão de Santa Catarina de Sena, seja ele quem for. O Romano Pontífice é o sucessor de Pedro; unidos a ele, estamos unidos a Cristo.

Na sua resposta à confissão de Pedro, Jesus fala da sua Igreja: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. Que significa isto? Jesus constrói a Igreja sobre a rocha da fé de Pedro, que confessa a divindade de Cristo. Sim, a Igreja não é uma simples instituição humana, como outra qualquer, mas está intimamente unida a Deus. O próprio Cristo Se refere a ela como a “sua” Igreja. Não se pode separar Cristo da Igreja, tal como não se pode separar a cabeça do corpo (1Cor 12,12). A Igreja não vive de si mesma, mas do Senhor. Ele está presente no meio dela e dá-lhe vida, alimento e fortaleza.

O que é a Igreja? Onde está a Igreja? A única Igreja de Cristo é a que nosso Salvador entregou a Pedro para que dela cuidasse, encarregando – a a ele e aos outros apóstolos de a difundirem e de a governarem e que erigiu para sempre como coluna e fundamento da verdade. Foi Cristo quem a instituiu e confiou a missão de anunciar e estabelecer o Reino de Deus em todo o mundo.

Jesus continua perguntando-nos: “quem dizeis que eu sou?” Para responder, não basta procurar na memória alguma fórmula que aprendemos no Catecismo, ou ouvimos de outros ou lemos nos livros. É preciso procurar no coração, em nossa fé vivida e testemunhada. Assim descobriremos o que Jesus representa, de fato, em nossa vida. Também hoje Jesus não se contenta que nós saibamos o que diz dele a cultura; quer a nossa resposta, de nós que cremos nele e que nele colocamos nossa esperança. A resposta não se deve certamente inventar, há aquela que deu um dia Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Aquela resposta, revivida e aprofundada por todas as gerações cristãs que nos precederam, proclamada pelos Concílios e pelo Magistério da Igreja, chegou até nós, e nós, quando recitamos a oração do Creio, não fazemos outra coisa senão repeti-la: “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus… que por nós, homens, e para nossa salvação se encarnou e se fez homem….” Nas suas orações e no seu ensinamento, a Igreja sempre repete a si mesma esta fé: Jesus não é somente um homem, ou um profeta; é mais do que um profeta: é Deus conosco.

“E vós quem dizeis que eu sou?” Eis uma pergunta que o Senhor nos faz a cada novo dia, tanto pessoalmente, quanto como Igreja. Quem é Cristo? É uma pergunta que deveria voltar a cada tomada de decisão, a cada ato nosso.

A Igreja é Cristo continuado! “Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16). Jesus não nos enganou: o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16, 18). Perpetuamente atacada, cercada de dificuldades e atraiçoada, prossegue com serenidade e confiança a missão que lhe foi confiada pelo seu Fundador.

Se olharmos a História, veremos que nunca faltaram contradições, dificuldades internas ou externas, perseguições mais ou menos veladas e violentas à Igreja. Começou com a perseguição e morte de seu Divino Fundador, na Cruz. Mais tarde, foram os apóstolos e os mártires. Nascem, mudam e morrem os personagens e as ideologias, e a Igreja permanece. Se fosse só humana, já teria acabado. Em tempos de Santo Agostinho, os inimigos da Igreja diziam: “A Igreja vai morrer, os cristãos tiveram a sua época”. Ao que o Santo Bispo de Hipona respondia: “No entanto, são eles que morrem todos os dias e a Igreja continua em pé, anunciando o poder de Deus às gerações que se sucedem”.

Que todos na Igreja, pastores e fiéis, nos aproximemo-nos, de dia para dia, sempre mais do Senhor, para crescermos em santidade de vida e darmos assim um testemunho eficaz de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, o Salvador de todos os homens e a fonte viva da sua esperança.

Somos convidados a entrar na intimidade de Jesus. Pedro é modelo de discípulo e nos leva ao centro de nossa fé: reconhecer Jesus como o Cristo. Também lembramos do importante papel que Pedro teve na comunidade primitiva. A resposta à pergunta de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?”deve continuar sendo dada, hoje, por todos os batizados. Não é só uma resposta falada, mas sobretudo testemunhada com a própria vida. É isso que se espera de todos os membros da Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje, a nós, seus discípulos, Jesus manda que digamos a todos que Ele é o Cristo: e dizê-lo, sobretudo, ao povo que continua a se perguntar quem é Jesus de Nazaré.

Neste mês vocacional, no quarto domingo, rezamos pela Vocação Leiga (cristãos leigos que atuam na sociedade e nas pastorais). Rezemos pelos leigos e leigas de nossa Igreja, para que se comprometam sempre com sua vocação de ser sal da terra e luz do mundo.

Dom José Maria Pereira

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Veja Mais