Homilia do D. José Maria Pereira – XVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

O Pão da Salvação. Dia do Padre.

Dom José Maria Pereira

A Palavra de Deus, em Mt 14, 13 – 21, mostra-nos Jesus, ao desembarcar num lugar deserto, que se viu rodeado por uma grande multidão que O procurava. Jesus “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14, 14). Curou-os por própria iniciativa, porque levar os doentes para aquele lugar isolado, deserto, era já uma bela oração e uma forte expressão de fé.

Os Apóstolos ficam preocupados com a multidão que não tem o que comer naquela região desértica e manifestam essa preocupação a Jesus. Eram cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças; para comer tinham apenas cinco pães e dois peixes.

Depois de mandar que se sentassem na relva, Jesus, tomando os cinco pães e os dois peixes, levantando os olhos ao Céu, pronunciou a bênção e, partindo os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos às multidões. Todos comeram até ficarem saciados. O Senhor cuida dos seus, dos que O seguem! Então, Jesus realiza um gesto que faz pensar no Sacramento da Eucaristia: “Elevando os olhos ao Céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo” (Mt 14,19). O milagre consiste na partilha fraterna de poucos pães que, confiados ao poder de Deus, não só são suficientes para todos, mas chegam a sobrar, ao ponto de encher doze cestos. O Senhor pede aos discípulos que distribuam o pão à multidão; desse modo, orienta-os e prepara-os para a futura missão apostólica: com efeito, deverão levar a todos a alimentação da Palavra de Vida e do Sacramento.

O relato do Milagre começa com as mesmas palavras e descreve os mesmos gestos com que os Evangelhos e São Paulo nos transmitem a instituição da Eucaristia (Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1Cor 11, 25). Esse milagre, além de ser uma manifestação da misericórdia divina de Jesus para com os necessitados, era figura da Sagrada Eucaristia, da qual o Senhor falaria pouco depois, na sinagoga de Cafarnaum (Jo 6, 26 – 59). Assim o interpretaram muitos padres da Igreja. Cristo está atento às necessidades materiais, mas deseja dar ulteriormente, porque o homem tem sempre “fome de algo mais, precisa de algo mais. No Pão de Cristo está presente o Amor de Deus; no encontro com Ele, nós alimentamo-nos, por assim dizer, do próprio Deus vivo, e comemos verdadeiramente do Pão do Céu” (Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, 2007). 

O milagre daquela tarde junto do lago manifestou o poder e o amor de Jesus pelos homens. Poder e amor que hão de possibilitar também, ao longo da história, que o Corpo de Cristo seja encontrado, sob as espécies sacramentais, pelas multidões dos fiéis que O procurarão famintas e necessitadas de consolo. Como diz São Tomás de Aquino: “… tomam-no um, tomam-no mil, tomam-no este ou aquele, mas não se esgota quando O tomam…”.

São João indica-nos que o milagre causou um grande entusiasmo naquela multidão que se tinha saciado (Jo 6, 14). Refletia São Josemaria Escrivá: “Senhor, se aqueles homens, por um pedaço de pão – embora o milagre da multiplicação tenha sido muito grande –, se entusiasmam e te aclamam, que não deveremos nós fazer pelos muitos dons que nos concedeste, e especialmente porque te entregas a nós, sem reservas, na Eucaristia?”  (Forja, 304). O Concílio Vaticano II afirmou que o sacrifício eucarístico é “fonte e centro de toda a vida cristã. Na Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo” (L.G. 11 e PO. 5).

Na comunhão, recebemos Jesus, Filho de Maria, que, naquela tarde, realizou o grandioso milagre. Na Hóstia, possuímos o Cristo de todos os mistérios da Redenção: o Cristo de Maria Madalena, do filho pródigo e da Samaritana, o Cristo ressuscitado dos mortos, sentado à direita do Pai. Esta maravilhosa presença de Cristo, no meio de nós, deveria revolucionar a nossa vida! Ele está aqui, conosco: em cada cidade, em cada povoado… Espera-nos e sente a nossa falta quando nos atrasamos.

Jesus, realmente presente na Sagrada Eucaristia, dá a este Sacramento uma eficácia sobrenatural infinita. A Santíssima Eucaristia é a doação máxima que Jesus Cristo fez de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Na Eucaristia, Jesus não dá “alguma coisa”, mas dá-se a Si mesmo; entrega o seu corpo e derrama o seu sangue. Graças à Eucaristia, a Igreja renasce sempre de novo! Quanto mais viva for a fé eucarística no povo de Deus, tanto mais profunda será a sua participação na vida eclesial por meio de uma adesão convicta à missão que Cristo confiou aos seus discípulos.

Vimos, no relato do milagre, que aquelas pessoas até se esqueceram da comida para não perderem o contato com Jesus. Peçamos a graça de sempre procurarmos o Mestre, desejar recebê-Lo na Eucaristia. Nós O encontramos na Sagrada Comunhão. Ele nos espera a cada um! Não fica na expectativa de que lhe peçamos alguma coisa: antecipa-se e cura-nos das nossas fraquezas, protege-nos contra os perigos, contra as vacilações que pretendem separar-nos dEle, e dá vida ao nosso caminhar. Cada Comunhão é uma fonte de graças, uma nova luz e um novo impulso que, às vezes, sem o notarmos, dá-nos fortaleza para enfrentarmos com garbo humano e sobrenatural a vida diária, a fim de que os nossos afazeres nos levem até Ele.

“A piedade eucarística, diz São João Paulo II, aproximar-vos-á cada vez mais do Senhor; e pedir-vos-á o oportuno recurso à Confissão sacramental, que leva à Eucaristia, como a Eucaristia leva à Confissão”. Recebendo a Eucaristia, podemos compreender o que diz São Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8, 35 – 39). Em Cristo, encontramos sempre a nossa fortaleza! “Na Eucaristia, Jesus faz de nós testemunhas da compaixão de Deus por cada irmão e irmã; nasce assim, à volta do Mistério Eucarístico, o serviço da caridade para com o próximo” (Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, 88).

O Senhor convida-nos, insistentemente, a recebê-Lo no Sacramento da Eucaristia: “Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53).

Vale a pena tomar o Catecismo da Igreja Católica e aprofundar os números que tratam sobre Os Frutos da Comunhão (números 1391 a 1401). O Catecismo resume, no número 1416: “A santa comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo aumenta a união do comungante com o Senhor, perdoa-lhes os pecados veniais e o preserva dos pecados graves. Por serem reforçados os laços de caridade entre o comungante e Cristo, a recepção deste Sacramento reforça a unidade da Igreja, corpo místico de Cristo”.  

É urgente buscarmos mais intimidade com o Senhor! E, Jesus deixou-nos meios e indicações seguras de como estar muito próximos dele, neste mundo. Os meios e indicações são os mesmos para todos: os sacramentos, a vida de oração, a leitura e meditação da Sagrada Escritura, os mandamentos, as bem-aventuranças, a vida e o ensinamento dos santos na História da Igreja, a fuga do pecado e das ocasiões de pecado, a luta para extirpar defeitos e adquirir virtudes. Deixou-nos meios acessíveis para que conhecêssemos a verdade e a vivêssemos. Mas, não nos obrigará a usarmos esses meios.

Se usarmos os meios, veremos verdadeiros milagres em nós; se dedicarmos diariamente cinco minutos para ler o Evangelho, outros cinco para lermos um bom livro de espiritualidade, outros cinco para lermos o Catecismo da Igreja Católica; se dermos audiência para Deus, numa conversa íntima chamada oração mental, como se fala com um amigo, um Pai amoroso, que tudo pode e tudo sabe.

Iniciamos hoje, juntamente com toda a Igreja no Brasil, o Mês Vocacional 2026, recordando nossa missão de sermos comunidades vocacionais. Hoje nos recordamos, diante de Deus, de todos os ministros ordenados da Igreja, em especial o(s) padre(s) de nossa comunidade!

A oração, no primeiro domingo de agosto, é pelos padres! Celebramos o Dia do Padre!

Assim disse o Papa Leão XlV aos padres, na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: “dirijo, em primeiro lugar, a mim mesmo e a todos vós as palavras que Deus disse ao povo de Israel: “Sede santos, porque Eu, vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 2; 1Pd 1, 16). Este chamamento divino percorre os séculos, ressoando também hoje com força para todos os crentes e, de forma particularmente exigente, para nós, sacerdotes. A santidade não é uma opção entre tantas outras, nem um ideal abstrato: ela interpela a própria identidade de toda pessoa que deseja participar na vida do Ressuscitado.”

Ensina São João Paulo ll: “A vocação sacerdotal é, essencialmente, uma chamada à santidade, na forma que nasce do Sacramento da Ordem. A santidade é intimidade com Deus, é imitação de Cristo pobre, casto e humilde; é amor sem reserva às almas e entrega pelo seu próprio bem; é amor à Igreja que é santa e nos quer santos, porque assim é a missão que Cristo lhe confiou. Cada um de vós deve ser santo, também, para ajudar os irmãos a seguir a sua vocação à santidade” (cf. Pastores Dabo Vobis, 33).

E, retomando a palavra de Leão XlV, aos padres, acima citado: “A resposta à vocação, para ser santos, não está no esforço do ascetismo e perfeição, embora necessário, mas na adesão confiante ao amor revelado no Coração trespassado de Jesus. Uma santidade assim não se vive a sós. Zelai pela fraternidade presbiteral: procurai-vos, escutai-vos, ajudai-vos uns aos outros. O sacerdote que se isola, apaga-se lentamente; o sacerdote que caminha com os irmãos, cresce. Santo Agostinho recorda-nos: “Como podemos não nos encontrar nas trevas? Amando os irmãos. Qual é a prova de que amamos os irmãos? Esta: não destruir a unidade e praticar a caridade”

“Caríssimos Sacerdotes, renovai todos os dias o vosso “eis-me aqui” perante o Coração trespassado de Cristo. Entregai-vos, totalmente, a Ele para que possais amar o seu povo com o mesmo amor com que Ele o ama. E lembrai-vos com alegria, como gostava de repetir o Santo Cura d’Ars, que “o sacerdócio é o amor do coração de Jesus” (cf. texto na íntegra, na Mensagem do Santo Padre Leão XlV aos Sacerdotes por ocasião do Dia da Santificação dos Sacerdotes).  

Confiemos a nossa oração à Virgem Maria, a fim de que Ela abra o nosso coração à compaixão pelo próximo e à partilha fraterna.

Dom José Maria Pereira

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