Homilia de Pe. Matheus Pigozzo – Quarta-feira de Cinzas

Com essa celebração iniciamos o significativo tempo da Quaresma, um tempo forte de conversão. A Santa Igreja, em especial através da liturgia, seja pelos textos rituais, seja pelos trechos bíblicos que nos apresenta, nos insere num caminho de reflexão, penitência e piedade, atualizando o alerta do Senhor: “Convertei-vos” (cf. Mt 4,17)!
Ora, no fundo de todo o pecado está o orgulho. Nossos primeiros pais, como nos revela o livro de Gênesis, acolheram o sussurro da serpente maligna: “Sereis como deuses” (3,5), desde aí, o movimento de conversão da humanidade será o caminho inverso – a humildade. Nesse sentido, parece muito cheio de significado a liturgia iniciar esse tempo de conversão colocando cinzas em nossa cabeça dizendo: “Lembra-te de que és pó, e ao pó hás de voltar.”. Com toda certeza, envoltos na sensibilidade própria de nossa cultura, tal gesto nos provoca algo de incômodo, mas, essa reticência desaparece, quando entendemos que quando Deus nos chama à pequenez, ao esvaziamento, é, na verdade, para que nos abramos a sua força que é a única capaz de nos tornar verdadeiramente grandes – filhos de Deus!
“Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes.” (Tg 4,6). O orgulho nos fecha a Deus. Reconhecer nossa fraqueza e consequente dependência do Senhor, afugentando as ilusões da autossuficiência, isolamento e egoísmo, é o caminho da abertura ao amor transformador do Senhor, um amor que “tira do lixo o indigente e o faz sentar-se com os nobres do seu povo.” (Cf. Sl 112,7-8). A frase litúrgica da celebração de hoje – “Lembra-te que és pó” – poderia servir de estribilho para nosso caminho de conversão. Quando a ira quiser nos levar à mágoa por uma injustiça sofrida – “Lembra-te que és pó”. Quando o brilho das riquezas e do poder quiser dominar o coração – “Lembra-te que és pó”. Quando a sensualidade quiser ditar o ritmo da vida e do relacionamento com o próximo – “Lembra-te que és pó”.
No Evangelho dessa Missa escutamos Jesus nos dar um caminho bem concreto de conversão, caminho que a espiritualidade católica ensina como principais pontos de luta e cura para todo o ser humano. Esse caminho pode nos motivar a propósitos concretos. “Quando deres esmola” (Mt 6,3) – A “esmola” nos faz desapegar dos bens e nos abrir ao próximo. “O diabo entra pelos bolsos” (Francisco, Catequese 07/11/18), esse alerta deve nos fazer pensar numa das faces do orgulho que é a ilusão dos bens, a avareza, que não está fundada no ter ou não ter, mas no apego ao que se têm. Pensar nas necessidades dos outros, sejam econômicas, emocionais ou morais, pode nos provocar ao desprendimento. “Quando orardes” (Mt 6,5) – A oração combate a soberba da vida, nos movimenta à saída de nós mesmos, pois nos faz reconhecer a soberania de Deus, dando honra a Ele, e nos enraíza na consciência de que dependemos da sua providência. Pela oração “nós caminhamos ao essencial e compreendemos que não é a potência dos nossos meios, das nossas virtudes, das nossas capacidades que realiza o Reino de Deus, mas é Deus que opera maravilhas justamente através da nossa fraqueza…” (Bento XVI, Catequese 13/06/12). Por último diz Cristo: “Quando jejuardes” (Mt 6,16). “A penitência é a oração dos sentidos” (S. Josemaria, É Cristo que passa, n.9). Nos abre o caminho para combater a rebeldia da carne, geralmente manifestada na preguiça, na gula e na sensualidade. No caminho de humildade e desapego de si, a penitência não se mede por quantidades e criatividades esquisitas, mas no domínio da vontade, que deve ser orientada para servir a Deus e ao próximo. Os sentidos agitados pelos excessos, dificultam a atenção a Deus e o serviço aos irmãos. Muitas vezes, a extravagância dos sentidos, a intemperança – por voltar o homem a si mesmo e ao que ele enxerga de imediato – são denominadas “sonolência” nas Escrituras impedindo o homem à transcendência e à alteridade. O Papa Leão XIV disse que é necessário que redescubramos o sentido do jejum (Cf. Discurso 14/05/25).
Como propósitos desse dia pode ser uma boa sugestão escolhermos três práticas, cada uma contemplando um desses pontos. É capaz que percebamos que muito de nossa rotina e vida cotidiana nos dá oportunidades dessas vivências – os conhecidos necessitados que precisam de nossa atenção, as práticas devocionais da realidade paroquial e familiar e as situações costumeiras que, com amor, se mudam em sacrifico de louvor.
Antes de terminar essa homilia, vale a pena prestarmos atenção na primeira leitura – “voltai para mim de todo o coração (…) rasgai o coração e não as vestes.” (Joel 2,12-13). Deus nos chama à conversão pois, quer o nosso coração. As práticas exteriores da Quaresma são importantes, inclusive é muita soberba desconsiderá-las como se a tradição da Igreja e a espiritualidade de séculos estivessem equivocadas, mas essas práticas existem para podermos dar nosso coração a Deus. Esse deve ser o tom de nossa vivência quaresmal: dar amor a Deus! Todas as práticas desse tempo têm sentido se são esforços de amor, de reconhecimento da dependência de um filho para com seu Pai.
A Virgem Dolorosa nos tome pela mão nesse tempo, ela nos ajude a vivermos a sobriedade e o recolhimento da Quaresma a fim de podemos dizer com toda a nossa alma: “Não há outro amor além do Amor!” (Caminho 417).

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