Homilia de Dom José Maria Pereira – V Domingo da Quaresma – Ano A

A Morte de Lázaro: Ensinamentos de Jesus! 

Dom José Maria Pereira

Faltam duas semanas para a Páscoa! Todas as Leituras bíblicas, deste domingo, falam da ressurreição. Não, ainda, da Ressurreição de Jesus, que irromperá como uma novidade absoluta, mas, da nossa, aquela pela qual aspiramos e que, precisamente, Cristo doou-nos, ressurgindo dos mortos.

No nosso itinerário quaresmal, chegamos ao 5º domingo, caracterizado pelo Evangelho da ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45). O evangelista insiste na amizade de Jesus com Lázaro e com as irmãs Maria e Marta. Ele ressalta o fato de que “Jesus era muito amigo” deles (Jo 11,5), e, por isso, quis realizar o grande prodígio. “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo” (Jo 11,11) – assim disse aos discípulos, expressando, com a metáfora do sono, o ponto de vista de Deus sobre a morte física: Deus vê-a, precisamente, como um sono, do qual nos pode despertar. Jesus demonstrou um poder absoluto em relação a esta morte: vê-se isto, quando restitui a vida ao filho da viúva de Naim (Lc 7, 11-17) e à menina de doze anos (Mc 5, 35-43). Jesus apresenta-se como o SENHOR DA VIDA. A doença e a morte, do amigo Lázaro, constituem ótima oportunidade para uma profissão de fé em Jesus Cristo, que se apresenta como a Ressurreição e a Vida. Entre as ressurreições operadas por Cristo, a de Lázaro tem uma importância fundamental, pois se trata de um morto que está no sepulcro há quatro dias. A resposta dada por Jesus àqueles que Lhe anunciam a doença de Lázaro: “Essa doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (Jo 11,4): A glória, de que fala Cristo, diz Santo Agostinho, “não foi um ganho para Jesus, mas proveito para nós. Portanto, diz Jesus que a doença não é de morte, porque aquela morte não era para morte, mas antes em ordem a um milagre, pelo qual os homens cressem em Cristo e evitassem assim a verdadeira morte.” É encantador o diálogo entre Jesus e Marta: “Disse Marta a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas, mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, Ele te concederá. Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará. Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia.” Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio, firmemente, que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11, 21-27). Segundo Santo Agostinho, o pedido de Marta é um exemplo de oração confiante e de abandono, nas mãos do Senhor, que sabe melhor que nós o que nos convém. Por isso, “não Lhe disse: Rogo-Te agora que ressuscites meu irmão (…) Somente disse: Sei que tudo podes e fazes tudo o que queres; mas fazê-lo fica ao Teu juízo, não aos meus desejos.” “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá ” (Jo 11, 25).

Estamos diante de uma das definições concisas que o Senhor deu de Si mesmo! É a ressurreição porque com a Sua Vitória sobre a morte é causa da ressurreição de todos os homens. O milagre que vai realizar com Lázaro é um sinal desse poder vivificador de Cristo. Assim, pela fé em Jesus Cristo, que foi o primeiro a ressuscitar de entre os mortos, o cristão está seguro de ressuscitar, também, um dia, como Cristo (1Cor 15,23; Col. 1,18).

Por isso, para quem tem fé, a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma mudança de morada, como diz um dos Prefácios da Liturgia dos defuntos: “Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal,

nos é dado nos céus, um corpo imperecível.” “ E Jesus chorou” (Jo 11, 35). Podemos contemplar a profundidade e a delicadeza dos sentimentos de Jesus. Se a morte corporal, do amigo, arranca lágrimas ao Senhor, que não fará a morte espiritual do pecador, causa da sua condenação eterna? Disse Santo Agostinho: ” Cristo chorou: chore também o homem sobre si mesmo. Por que chorou Cristo, senão para ensinar o homem a chorar?” Choremos nós, também, mas pelos nossos pecados, para que voltemos à vida da graça, pela conversão e pelo arrependimento. Não desprezemos as lágrimas do Senhor, que chora por nós, pecadores. Disse São Josemaria Escrivá: “Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne, como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… — E, tanto como a Lázaro, te ama a ti” (Caminho, nº 422).

De qualquer forma, a volta à vida, de Lázaro, é sinal de nossa ressurreição futura e demonstra o poder de Jesus sobre a morte. Ele é a ressurreição, porque é causa da ressurreição de todos, ao final dos tempos. É a vida, porque a vida divina, a vida plena é-nos dada por Ele, com Ele e nEle.

Ao aproximar-se a Páscoa, o relato da ressurreição de Lázaro é uma exortação para que nos libertemos, cada vez mais, do pecado, confiando no poder vivificador de Cristo que quer tornar os homens participantes de Sua própria ressurreição. Santo Agostinho vê, na ressurreição de Lázaro, uma figura do Sacramento da Penitência (Confissão): como Lázaro do túmulo “sais tu quando te confessas. Pois, que quer dizer sair senão manifestar-se como vindo de um lugar oculto? Mas para que te confesses, Deus dá um grande grito, chama-te com uma graça extraordinária. E, assim, como o defunto saiu ainda atado, também, o que se vai confessar, ainda, é réu. Para que fique desatado dos seus pecados, disse o Senhor aos ministros: Desatai-o e deixai-o andar.

Que quer dizer desatai-o e deixai-o andar? O que desligares na terra, será desligado no céu”. Podemos aplicar esse fato à ressurreição espiritual da alma, em pecado, que recobre a graça. Deus quer a nossa salvação (1Tm 2,4), portanto, jamais havemos de desanimar no nosso afã e esperança por alcançar essa meta: “Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: já cheira mal. Está morto há quatro dias (Jo 11, 39), diz Marta a Jesus. Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires (Lázaro, vem para fora!), voltarás à Vida” (Caminho, nº 719).

Jesus declarou solenemente a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” (Jo 11, 25 – 26). É uma pergunta que Jesus dirige a cada um de nós; uma interrogação que, certamente, supera-nos, ultrapassa a nossa capacidade de compreender e exige que confiemos n’Ele, como Ele se confiou ao Pai. A resposta de Marta é exemplar: “Sim, Senhor, eu creio, firmemente, que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11, 27). Sim, ó Senhor! Também nós acreditamos, não obstante as nossas dúvidas e as nossas obscuridades; cremos em ti, porque Tu tens palavras de vida eterna; desejamos acreditar em ti, que nos infundes uma confiável esperança de vida para além da vida, de vida autêntica e repleta no teu Reino de luz e de paz.

Mas, há outra morte, que custou a Cristo a luta mais dura, inclusive o preço da Cruz: é a morte espiritual, o pecado, que ameaça arruinar a existência de cada homem. Para vencer esta morte, Cristo morreu, e a sua Ressurreição não é o regresso à vida precedente, mas a abertura de uma Realidade nova, uma “nova Terra”, finalmente, reunida com o Céu de Deus. Por isso, São Paulo escreve: “E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos, mora em

vós, então Aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará, também, vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós” (Rm 8, 11).

Pela fé em Jesus Cristo, Vida e Ressurreição, resolve-se a questão mais fundamental do homem: a vida. Jesus nos garante: ” Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que morra, viverá. Que a Quaresma nos ajude na conversão ruma à Páscoa! Como discípulos missionários, ajudemos os muitos Lázaros, que estão no sepulcro, esperando por quem grite: “Lázaro, vem para fora!”

Quaresma é tempo de escutar. Deus grita para cada um de nós, como gritou com Lázaro morto e sepultado: “Vem para fora!” Nós, também, podemos estar imobilizados, presos, até mortos pelo egoísmo, pela vaidade, pelo pecado. Vem para fora.

Dirijamo-nos à Virgem Maria, que já participa desta Ressurreição, para que nos ajude a dizer com fé: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11,27), a descobrir verdadeiramente que Ele é a nossa salvação.

Dom José Maria Pereira

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