Homilia de Dom José Maria – IV Domingo de Páscoa – Ano A

O Bom Pastor, os Jovens, a Vocação.

Dom José Maria Pereira

Neste Quarto Domingo de Páscoa, no qual a Liturgia nos apresenta Jesus como BOM PASTOR,
celebra-se o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Em cada continente, as comunidades
eclesiais invocam, em sintonia ao Senhor, numerosas e santas vocações para o sacerdócio,
para a vida consagrada e missionária e para o matrimônio cristão e meditam sobre o tema que
tem sido proposto pelo Papa. Neste ano de 2026, o Santo Padre Leão XlV propôs o tema: “A
descoberta interior do dom de Deus”.

Depois de várias aparições, de Cristo Ressuscitado, às mulheres, aos apóstolos, aos discípulos,
hoje, Jesus apresenta-se como o BOM PASTOR! É um título de Cristo muito familiar aos
primeiros cristãos.

Na primeira leitura (At 2,14-41), ouvimos o discurso de Pedro, no dia de Pentecostes. Ele se
dirige à multidão dos judeus que não tinham ainda se convertido; explica-lhes o sentido da
morte de Cristo, prepara-os para a fé e a conversão. O pescador da Galileia está fazendo sua
primeira experiência como pescador de homens: “Naquele dia se uniram a eles cerca de três
mil pessoas…” (Cf. At 2, 41).

No Evangelho (Jo 10, 1-10) ouvimos a palavra do próprio Cristo que nos fala em primeira
pessoa: Eu sou o Bom Pastor: Eu sou a Porta. É uma catequese sobre a missão de Jesus:
conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas, de onde brota a vida em
plenitude. “Suas ovelhas encontram pastagem, pois todo aquele que O segue na simplicidade
de coração é nutrido por pastagens sempre verdes. Quais são afinal as pastagens dessas
ovelhas, senão as profundas alegrias de um paraíso sempre verdejante? Sim, o alimento dos
eleitos é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo, sem cessar, a alma sacia-se,
eternamente, com o alimento da vida. Procuremos, portanto, alcançar essas pastagens, onde
nos alegraremos na companhia dos cidadãos do Céu. Que a própria alegria dos bem-
aventurados nos estimule. Corações ao alto, meus irmãos! Que a nossa fé se afervore nas
verdades em que acreditamos; inflame-se o nosso desejo pelas coisas do Céu. Amar assim já é
pôr-se a caminho. Nenhuma prosperidade sedutora nos iluda. Insensato seria o viajante que,
contemplando a beleza da paisagem, se esquece de continuar sua viagem até o fim” (São
Gregório Magno).

O Evangelho de São João, no décimo capítulo, descreve-nos as características peculiares da
relação de Cristo Pastor com o seu rebanho, uma relação tão estreita que jamais alguém
poderá raptar as ovelhas da sua mão. De fato, elas estão unidas por um vínculo de amor e de
conhecimento recíproco, que lhes garante o dom incomensurável da vida eterna. Ao mesmo
tempo, a atitude do rebanho em relação ao Bom Pastor, Cristo, é apresentada pelo Evangelista
com dois verbos específicos: ouvir e seguir. Essas palavras designam as características
fundamentais daqueles que vivem o seguimento do Senhor. Antes de tudo, a escuta da sua
Palavra, da qual a fé nasce e se alimenta. Só quem presta atenção à voz do Senhor é capaz de
avaliar, na própria consciência, as justas decisões para agir segundo Deus. Por conseguinte, da
escuta deriva o seguir Jesus: agimos como discípulos, depois de ter ouvido e aceitado,
interiormente, os ensinamentos do Mestre, para vive-los na quotidianidade.

O Bom Pastor aparece numa atitude de ternura com as ovelhas… Ele as conhece, chama-as
pelo nome, caminha com elas e estas O seguem. Elas escutam a sua voz, porque sabem que as
conduz com segurança.

Em contraste com o Pastor, aparece a figura dos ladrões e dos bandidos. São todos os que se
apresentam como Pastor, ou até falam em nome de Cristo, mas procuram somente vantagens
pessoais. Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica-Se a Si mesmo a imagem da porta pela
qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. Ensina o Concílio Vaticano II: “ A Igreja é o
redil, cuja única porta e necessário pastor é Cristo (LG,6). No redil, entram os pastores e as
ovelhas. Tanto uns como outras hão de entrar pela porta que é Cristo. “ Eu, pregava Santo
Agostinho, querendo chegar até vós, isto é, ao vosso coração, prego-vos Cristo: se pregasse
outra coisa, quereria entrar por outro lado. Cristo é para mim a porta para entrar em vós: por
Cristo entro não nas vossas casas, mas nos vossos corações. Por Cristo, entro, gozosamente, e
escutais-me ao falar dele. Por quê? Porque sois ovelhas de Cristo e fostes compradas com o
Seu Sangue”

Diz Jesus: “E depois de conduzir para fora todas as que são suas, ele caminha à frente e as
ovelhas O seguem, porque conhecem sua voz” (Jo 10,4). Ora, a Igreja é Cristo continuado! Diz
São Josemaria Escrivá: “Cristo deu à Sua Igreja a segurança da doutrina, a corrente de graça
dos Sacramentos; e providenciou para que haja pessoas que nos orientem, que nos conduzam,
que nos recordem constantemente o caminho. Dispomos de um tesouro infinito de ciência: a
Palavra de Deus guardada pela Igreja; a Graça de Cristo, que se administra nos Sacramentos; o
testemunho e o exemplo dos que vivem com retidão ao nosso lado e sabem fazer das suas
vidas um caminho de fidelidade a Deus” (Cristo que passa, nº 34). Jesus é a porta das ovelhas!
Para as ovelhas significa que Jesus é o único lugar de acesso para que as ovelhas possam
encontrar as pastagens que dão vida.

Para os cristãos, o Pastor por excelência é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o
rebanho de Deus… Portanto, Cristo deve conduzir as nossas escolhas.

Quem nos conduz? Qual é a voz que escutamos? A voz da política, a voz da opinião pública, a
voz do comodismo e da instalação, a voz dos nossos privilégios, a voz do êxito e do triunfo a
qualquer custo, a voz da novela? A voz da televisão?

Cristo é o nosso Pastor! Ele conhece as ovelhas e as chama pelo nome, mantendo com cada
uma delas uma relação muito pessoal. “Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas, isto
é, eu as amo, e minhas ovelhas me conhecem” (Jo 10, 14). É como se quisesse dizer
francamente: elas correspondem ao amor daquele que as ama. Quem não ama a verdade, é
porque ainda não conhece perfeitamente.

Por isso, nesta passagem do Evangelho, o Senhor acrescenta imediatamente: “ assim como o
Pai me conhece, eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10, 15). Como se
dissesse, explicitamente: a prova de que eu conheço o Pai e sou por ele conhecido, é que dou
minha vida por minhas ovelhas; por outras palavras, este amor que me leva a morrer por
minhas ovelhas, mostra o quanto eu amo o Pai.

Nenhuma prosperidade sedutora nos iluda. Insensato seria o viajante que, contemplando a
beleza da paisagem, esquece-se de continuar sua viagem até o fim.

Suas ovelhas encontram pastagem, pois todo aquele que o segue na simplicidade de coração é
nutrido por pastagens sempre verdes. Quais são afinal as pastagens dessas ovelhas, senão as profundas alegrias de um paraíso sempre verdejante? Sim, o alimento dos eleitos é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo sem cessar, a alma sacia-se eternamente com o alimento da vida.

A existência humana é bem complexa para que se possa vivê-la com segurança absoluta. Jesus,
porém, oferece a quem O segue a direção exata e a proteção eficaz para evitar os elementos
que podem prejudicar. Afirma o Sl 22(23): “ Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,
nenhum mal eu temerei; estais comigo…”.

O Divino Pastor é quem pode, realmente, ajudar, salvar e conservar a vida. Ele afirmou: “Eu
vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

Para distinguir a Voz do Pastor é preciso três coisas: – Uma vida de oração intensa; um
confronto permanente com a Palavra de Deus e uma participação ativa nos Sacramentos, onde
recebemos a vida, que o Pastor nos oferece.

Neste domingo, dia 26 de abril, celebramos o 63° Dia Mundial de Oração pelas Vocações, com
o tema: “A descoberta interior do dom de Deus”. Segundo o Papa Leão XlV, esse dia é uma
ocasião de graça para partilhar algumas reflexões sobre a dimensão interior da vocação,
entendida como descoberta do dom gratuito de Deus que floresce no mais profundo do
coração de cada um de nós”.

Eis o que disse o Papa Leão XlV: “Convido-vos todos – famílias, paróquias, comunidades
religiosas, bispos, sacerdotes, diáconos, catequistas, educadores e fiéis leigos – a
empenharem-se cada vez mais em criar ambientes favoráveis para que esse dom possa ser
acolhido, alimentado, protegido e acompanhado, a fim de dar fruto abundante. Somente se os
nossos ambientes brilharem pela fé viva, pela oração constante e pelo acompanhamento
fraterno, o apelo de Deus poderá florescer e amadurecer, tornando-se caminho de felicidade e
salvação para cada um e para o mundo. Caminhando pela via que Jesus, o Bom Pastor, indica-
nos, aprendemos, então, a conhecermo-nos melhor a nós mesmos e a conhecer mais de perto
Deus, que nos chamou”.

Continua o Papa, falando aos jovens: “Queridos jovens, escutai esta voz! (o Papa, antes,
convidou os jovens a escutarem a voz de Cristo). Escutai a voz do Senhor que vos convida a
viver uma vida plena, realizada, fazendo frutificar os próprios talentos (cf. Mt 25, 14-30) e
pregando as próprias limitações e fraquezas na gloriosa Cruz de Cristo. Parai, portanto, em
adoração eucarística, meditai assiduamente a Palavra de Deus para a viverdes todos os dias,
participai ativa e plenamente na vida sacramental e eclesial. Desta forma, conhecereis o
Senhor e, na intimidade própria da amizade, descobrireis como doar-vos no caminho do
matrimônio ou do sacerdócio, ou do diaconato permanente, ou na vida consagrada, religiosa
ou secular: cada vocação é um dom imenso para a Igreja e para quem a acolhe com alegria.
Conhecer o Senhor significa, antes de tudo, aprender a confiar n’Ele e na sua Providência, que
superabunda em cada vocação”.

Conclui o Papa: “Queridos irmãos e irmãs, caríssimos jovens, encorajo-vos a cultivar a relação
pessoal com Deus através da oração diária e da meditação da Palavra. Parai, escutai, confiai:
deste modo, o dom da vossa vocação amadurecerá, far-vos-á felizes e dará abundantes frutos
para a Igreja e para o mundo”.

Dom José Maria Pereira

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