Eu sou a porta das ovelhas!
Jo 10,1-10
Caros irmãos e irmãs,
Neste quarto domingo do tempo pascal celebramos o “Domingo do Bom Pastor”, onde a Liturgia da Palavra nos apresenta um trecho do Evangelho segundo São João, sendo Jesus apresentado como o Bom Pastor. A Igreja celebra também neste domingo o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. E não só vocações sacerdotais, mas também religiosas, uma vez que os religiosos, ao lado dos sacerdotes da Igreja, colaboram na edificação do reino de Deus. Devemos pedir ao Senhor por aqueles que estão se preparando para o sacerdócio e por todos os ministros da Igreja. Jesus disse aos apóstolos “vem e segueme” (Mt 19,21). Este mesmo chamado deve continuar ressoando em nossos ouvidos.
E neste contexto litúrgico, de modo particular e significativo, peçamos ao Senhor que jamais deixe de suscitar pessoas que O sigam de modo total na orientação do seu rebanho. Por isto, neste dia dedicado às vocações, pedimos ao “Senhor da messe” que possa continuar enviando operários para a sua vinha, porque “a messe é grande” (Mt 9,37). E que ele sustente bons e dedicados sacerdotes, para que possam ser autênticos ministros do Cristo Bom Pastor, para que os fiéis, mediante a Palavra e os sacramentos, “tenham vida” e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10), como diz o texto evangélico que ouvimos e que agora passamos a refletir.
Na primeira parte do texto evangélico (cf. Jo 10,1-6), Jesus se apresenta como o Pastor. E como Bom Pastor Ele conhece as “ovelhas” e as chama pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal. Elas fazem parte do rebanho de Jesus e escutam a sua voz. O pastor caminhará à frente das ovelhas e elas o seguem (v. 4). Ele indica o caminho, pois Ele próprio é o caminho (cf. Jo 14,6) que leva à vida. Isso significa, concretamente, tornar-se discípulo, aderir a Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projetos de Deus e na doação aos irmãos.
A Sagrada Escritura nos apresenta a figura do pastor desde a mais longínqua antiguidade: “Caim era lavrador, Abel era Pastor (cf. Gn 4,2). Também Davi foi pastor em Belém (cf. 1Sm 16,11) a quem é atribuído o Sl 22 onde descreve a imagem de Deus como Pastor. O Salmo sublinha como o pastor guia seu rebanho para verdes pastagens e para águas tranquilas. O salmista acentua a dedicação total do pastor e a confiança total do rebanho. No Novo Testamento esta imagem é transferida para Jesus Cristo, o Deus conosco. Em diversos momentos, Jesus vai assumir essa figura de pastor, como acentua, por exemplo, o Evangelho deste domingo, cujo texto está dividido em duas parábolas.
Na segunda parte do Evangelho (cf. Jo 10,7-9), Jesus se apresenta como a porta. Ao dizer “Eu sou a porta” (Jo 10,7), Jesus quer ressaltar que é através dele que se deve entrar no serviço de pastor. Jesus põe em evidência esta condição fundamental, afirmando: “Quem… sobe por outro lado, é um ladrão e salteador” (Jo 10,1). Esta palavra, “sobe” anabainei, em grego evoca a imagem de alguém que escala um recinto para ir aonde legitimamente não poderia chegar. “Subir” aqui pode-se ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar “ao alto”, de procurar uma posição por meio da Igreja: servir-se, e não servir.
No que diz respeito às ovelhas, isto significa que Jesus é o único lugar de acesso para que elas possam encontrar as pastagens para nutrir a vida. Passar pela porta que é Jesus significa segui-lo, acolher as suas propostas. A porta é um dos símbolos do Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta” (Jo 10,9). Através dele encontramos a nós mesmos e encontramos os outros. E Cristo ainda completa: “Quem entrar por mim tem a vida!” (Jo 10,9). Quem entrar por Ele não fica desiludido, não sairá defraudado e encontrará orientação para a vida. Cristo é a porta que está sempre aberta. E cada um de nós também é chamado a passar por esta porta.
No tempo de Jesus, os pastores costumavam construir nos campos um abrigo para a noite. Um retângulo cercado por um pequeno muro de pedra, com uma única porta e, propositadamente, estreita. Durante a noite vários pastores levavam ao abrigo suas ovelhas e um deles ficava na posição de vigia durante toda a noite. Pela manhã, cada pastor chamava suas ovelhas, elas saíam pela única porta estreita, ele as contava e as levava a pastar. Mas também as cidades naquela época eram muradas. Entrava-se e saía-se das cidades somente pela porta. Por isso, a porta significava proteção e segurança. Era na porta da cidade que se recebiam os que chegavam e se despediam os que partiam.
Jesus, ao se comparar com uma porta, está dizendo que somente por Ele se entra no abrigo, somente por ele se entra na cidade de Deus, no Reino dos Céus. Mas também está dizendo que somente nele podemos encontrar segurança e proteção. Ele é o único caminho pelo qual se pode entrar no Reino de Deus. O pastor abre a porta para as ovelhas. Jesus se compara a este Pastor que abre as portas e nos leva ao Pai. Jesus é o caminho seguro e certo para toda a humanidade. A porta dá acesso à salvação e, por ela entram os fiéis na casa de Deus.
Certa vez disse Jesus: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque muitos, tentarão entrar e não conseguirão ” (Lc 13,23-24). E podemos perguntar o que significa esta “porta estreita”? Significa que todos podem entrar na vida, mas para todos a porta é “estreita”. Não há privilégios. A passagem para a vida eterna está aberta a todos, mas é “estreita” porque é exigente, requer compromisso, abnegação, mortificação do próprio egoísmo. Este caminho tem início no Batismo (cf. Rm 6,4).
Para entrarmos pela porta estreita, devemos empenhar-nos a ser pequenos, isto é, humildes de coração como Jesus. Como a Virgem Maria. Foi ela a primeira, seguindo Jesus, a percorrer o caminho da Cruz e foi elevada à glória do Céu. Ela é invocada como “Porta do Céu”. Peçamos-lhe que nos guie, nas nossas opções quotidianas, pelo caminho que conduz à “porta do Céu”.
Cada pessoa humana traz uma porta em seu interior. Em nosso encontro de oração, Jesus pede que fechemos a porta e fiquemos em sua presença (cf. Mt 6,6). E no Livro do Apocalipse lemos: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20). Saibamos escutar a voz do Senhor que a todo momento nos chama a segui-lo. E esta deve ser a atitude do rebanho em relação ao Bom Pastor, como ouvimos no texto evangélico, onde dois verbos chamam a nossa atenção: ouvir e seguir. Antes de tudo, é pela escuta da Palavra de Deus que a fé nasce e se alimenta. Só quem presta atenção à voz do Senhor é capaz de avaliar na própria consciência as justas decisões para agir segundo Deus. Por conseguinte, da escuta deriva o seguir Jesus: agimos como discípulos após ouvir e aceitar interiormente os ensinamentos do Mestre, para os vivê-los no cotidiano.
Com muita espontaneidade esse título de pastor passou a ser aplicado aos ministros da Igreja. Aliás, Pedro foi oficialmente constituído pastor do rebanho de Cristo. As palavras de Jesus dirigidas a Pedro indicam a sua missão de guardar todo o rebanho do Senhor: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17). O Bom Pastor, será ainda o ideal de todo aquele que se dedica ao anúncio do Reino, modelo do serviço e da exposição da própria vida aos perigos, por causa do rebanho que lhe é confiado. Efetivamente a missão de Cristo prossegue ao longo da história, através da obra dos Pastores aos quais Ele confia o cuidado do seu rebanho. Como fez com os primeiros discípulos, Jesus continua a escolher para si novos colaboradores que cuidam do seu rebanho mediante o ministério da Palavra e dos Sacramentos.
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ