Queridos filhos,
Alegra-me poder dirigir-vos esta carta por ocasião da vossa Assembleia Presbiteral, e fazê-lo a partir de um sincero desejo de fraternidade e unidade. Agradeço ao vosso Arcebispo e, de coração, a cada um de vós, a disponibilidade para vos reunirdes como presbitério, não apenas para tratar de assuntos comuns, mas para vos sustentardes mutuamente na missão que partilhais.
Aprecio o compromisso com que viveis e exerceis o vosso sacerdócio em paróquias, serviços e realidades muito diversas; sei que, muitas vezes, este ministério se desenvolve em meio ao cansaço, a situações complexas e a uma entrega silenciosa da qual somente Deus é testemunha. Precisamente por isso, desejo que estas palavras vos alcancem como um gesto de proximidade e de encorajamento, e que este encontro favoreça um clima de escuta sincera, de verdadeira comunhão e de abertura confiante à ação do Espírito Santo, que não cessa de agir na vossa vida e na vossa missão.
O tempo que a Igreja vive convida-nos a deter-nos juntos numa reflexão serena e honesta. Não tanto para nos fixarmos em diagnósticos imediatos ou na gestão de urgências, mas para aprender a ler com profundidade o momento que nos cabe viver, reconhecendo, à luz da fé, os desafios e também as possibilidades que o Senhor abre diante de nós. Neste caminho, torna-se cada vez mais necessário educar o olhar e exercitarmo-nos no discernimento, de modo que possamos perceber com maior clareza aquilo que Deus já está operando, muitas vezes de forma silenciosa e discreta, no meio de nós e das nossas comunidades.
Esta leitura do presente não pode prescindir do quadro cultural e social no qual hoje se vive e se expressa a fé. Em muitos ambientes, constatamos processos avançados de secularização, uma crescente polarização no discurso público e a tendência a reduzir a complexidade da pessoa humana, interpretando-a a partir de ideologias ou categorias parciais e insuficientes. Neste contexto, a fé corre o risco de ser instrumentalizada, banalizada ou relegada ao âmbito do irrelevante, enquanto se consolidam formas de convivência que prescindem de qualquer referência transcendente.
A isso se soma uma mudança cultural profunda que não pode ser ignorada: o progressivo desaparecimento de referências comuns. Durante muito tempo, a semente cristã encontrou uma terra, em grande medida, preparada, porque a linguagem moral, as grandes questões sobre o sentido da vida e certas noções fundamentais eram, ao menos em parte, partilhadas. Hoje, esse substrato comum enfraqueceu-se notavelmente. Muitos dos pressupostos conceituais que, durante séculos, facilitaram a transmissão da mensagem cristã deixaram de ser evidentes e, em não poucos casos, até mesmo compreensíveis. O Evangelho não se depara apenas com a indiferença, mas com um horizonte cultural distinto, no qual as palavras já não significam o mesmo e onde o primeiro anúncio não pode ser dado como pressuposto.
Contudo, esta descrição não esgota aquilo que realmente está acontecendo. Estou convencido — e sei que muitos de vós o percebeis no exercício cotidiano do vosso ministério — de que, no coração de não poucas pessoas, especialmente dos jovens, abre-se hoje uma nova inquietação. A absolutização do bem-estar não trouxe a felicidade esperada; uma liberdade desvinculada da verdade não gerou a plenitude prometida; e o progresso material, por si só, não conseguiu saciar o desejo profundo do coração humano.
De fato, as propostas dominantes, juntamente com determinadas leituras hermenêuticas e filosóficas com as quais se quis interpretar o destino do homem, longe de oferecer uma resposta suficiente, deixaram com frequência uma maior sensação de saturação e vazio. Precisamente por isso, constatamos que muitas pessoas começam a abrir-se a uma busca mais honesta e autêntica — uma busca que, acompanhada com paciência e respeito, as está conduzindo novamente ao encontro com Cristo. Isto recorda-nos que, para o sacerdote, não é momento de retraimento nem de resignação, mas de presença fiel e de disponibilidade generosa. Tudo isso nasce do reconhecimento de que a iniciativa é sempre do Senhor, que já está agindo e nos precede com a sua graça.
Vai-se delineando, assim, que tipo de sacerdotes Madri — e a Igreja inteira — necessita neste tempo. Certamente não homens definidos pela multiplicação de tarefas ou pela pressão dos resultados, mas homens configurados a Cristo, capazes de sustentar o seu ministério a partir de uma relação viva com Ele, nutrida pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo dom sincero de si. Não se trata de inventar novos modelos nem de redefinir a identidade que recebemos, mas de voltar a propor, com renovada intensidade, o sacerdócio no seu núcleo mais autêntico — ser alter Christus —, deixando que seja Ele quem configure a nossa vida, unifique o nosso coração e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da entrega fiel à Igreja e do serviço concreto às pessoas que nos foram confiadas.
Queridos filhos, permiti-me que hoje vos fale do sacerdócio servindo-me de uma imagem que conheceis bem: a vossa Catedral. Não para descrever um edifício, mas para aprender com ele. Porque as catedrais — como qualquer lugar sagrado — existem, assim como o sacerdócio, para conduzir ao encontro com Deus e à reconciliação com os nossos irmãos, e os seus elementos encerram uma lição para a nossa vida e ministério.
Ao contemplar a sua fachada, aprendemos já algo essencial. É a primeira coisa que se vê e, contudo, não diz tudo: indica, sugere, convida. Assim também o sacerdote não vive para se exibir, mas tampouco para se esconder. A sua vida é chamada a ser visível, coerente e reconhecível, ainda que nem sempre seja compreendida. A fachada não existe para si mesma: conduz ao interior. Do mesmo modo, o sacerdote nunca é fim em si mesmo. Toda a sua vida é chamada a remeter a Deus e a acompanhar a passagem para o Mistério, sem usurpar o seu lugar.
Ao chegar ao limiar, compreendemos que não convém que tudo entre no interior, pois é espaço sagrado. O limiar marca uma passagem, uma separação necessária. Antes de entrar, algo fica de fora. Também o sacerdócio se vive assim: estando no mundo, mas sem ser do mundo (cf. Jo 17,14). Neste cruzamento situam-se o celibato, a pobreza e a obediência; não como negação da vida, mas como a forma concreta que permite ao sacerdote pertencer inteiramente a Deus sem deixar de caminhar entre os homens.
A catedral é também um lar comum, onde todos têm lugar. Assim é chamada a ser a Igreja, especialmente para com os seus sacerdotes: uma casa que acolhe, que protege e que não abandona. E assim deve ser vivida a fraternidade presbiteral: como a experiência concreta de saber-se em casa, responsáveis uns pelos outros, atentos à vida do irmão e dispostos a sustentar-nos mutuamente. Filhos meus, ninguém deveria sentir-se exposto ou só no exercício do ministério: resisti juntos ao individualismo que empobrece o coração e enfraquece a missão!
Ao percorrer o templo, percebemos que tudo repousa sobre as colunas que sustentam o conjunto. A Igreja viu nelas a imagem dos Apóstolos (cf. Ef 2,20). Tampouco a vida sacerdotal se sustenta por si mesma, mas no testemunho apostólico recebido e transmitido na Tradição viva da Igreja, e guardado pelo Magistério (cf. 1Cor 11,2; 2Tm 1,13-14). Quando o sacerdote permanece ancorado neste fundamento, evita edificar sobre a areia de interpretações parciais ou acentos circunstanciais, e apoia-se na rocha firme que o precede e o supera (cf. Mt 7,24-27).
Antes de chegar ao presbitério, a catedral mostra-nos lugares discretos, mas fundamentais: na pia batismal nasce o Povo de Deus; no confessionário é continuamente regenerado. Nos sacramentos, a graça revela-se como a força mais real e eficaz do ministério sacerdotal. Por isso, queridos filhos, celebrai os sacramentos com dignidade e fé, conscientes de que aquilo que neles se realiza é a verdadeira força que edifica a Igreja e que são o fim último ao qual se ordena todo o nosso ministério. Mas não esqueçais que não sois a fonte, mas o canal, e que também precisais beber dessa água. Por isso, não deixeis de vos confessar, de voltar sempre à misericórdia que anunciais.
Junto ao espaço central, abrem-se diversas capelas. Cada uma tem a sua história, a sua invocação. Apesar de serem distintas em arte e composição, todas partilham uma mesma orientação; nenhuma está voltada para si mesma, nenhuma rompe a harmonia do conjunto. Assim sucede também na Igreja com os diversos carismas e espiritualidades por meio dos quais o Senhor enriquece e sustenta a vossa vocação. Cada um recebe uma forma particular de expressar a fé e de nutrir a interioridade, mas todos permanecem orientados para o mesmo centro.
Olhemos para o centro de tudo, filhos meus: aqui se revela o que dá sentido ao que fazeis cada dia e de onde brota o vosso ministério. No altar, por vossas mãos, atualiza-se o sacrifício de Cristo na mais alta ação confiada às mãos humanas; no sacrário, permanece Aquele que oferecestes, novamente confiado ao vosso cuidado. Sede adoradores, homens de profunda oração, e ensinai o vosso povo a fazer o mesmo.
Ao término deste percurso, para serdes os sacerdotes que a Igreja hoje necessita, deixo-vos o mesmo conselho do vosso santo compatriota, São João de Ávila: «Sede vós totalmente d’Ele» (Sermão 57). Sede santos! Confio-vos a Santa Maria de Almudena e, com o coração cheio de gratidão, concedo-vos a Bênção Apostólica, que estendo a todos quantos estão confiados ao vosso cuidado pastoral.
Vaticano, 28 de janeiro de 2026.
Memória de São Tomás de Aquino, presbítero e doutor da Igreja.
LEÃO PP. XIV
