Joio, Trigo e a Paciência de Deus!
Dom José Maria Pereira
Frente ao mal que se propaga no mundo, vem a pergunta: por que Deus não intervém e resolve tudo? Jesus responde com a parábola do joio e do trigo, uma lição de paciência e esperança.
“O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo” (Mt 13, 24): Mateus faz questão de mostrar que tudo aquilo que sai da mão do semeador é bom. Com isso, virá a surpresa na colheita: se tudo o que foi plantado foi bom, por que há então fruto mal? O semeador também teria plantado sementes ruins?
“Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo “ (Mt 13, 25). Aqui podemos saber a origem do mal: nunca vem do semeador, mas daqueles que estão contra ele. O inimigo não está só do lado de fora, mas, muitas vezes, vem causar confusão dentro do campo do próprio semeador.
O tema contido no Evangelho deste domingo (Mt 13, 24 – 43) é, precisamente, o Reino dos Céus. O “Céu” não deve ser entendido, unicamente, no sentido da altura que nos ultrapassa, porque tal espaço infinito possui também a forma da interioridade do homem. Jesus compara o Reino dos Céus com um campo de trigo, para nos levar a compreender que, dentro de nós, foi semeado algo de pequeno e escondido que, no entanto, possui uma força vital insuprimível. Não obstante todos os obstáculos, a semente desenvolver-se-á e o fruto amadurecerá. Este fruto só será bom, se o terreno da vida for cultivado em conformidade com a vontade divina. Por isso, na parábola do trigo bom e do joio, Jesus admoesta-nos que, depois da sementeira realizada pelo dono, “enquanto todos dormiam”, interveio “o seu inimigo”, que semeou a erva daninha. Isto significa que devemos estar prontos para conservar a graça recebida desde o dia do Batismo, continuando a alimentar a fé no Senhor, que impede que o mal ganhe raízes. Santo Agostinho, comentando esta parábola, observa que “muitos, primeiro são joio e depois tornam-se trigo bom,” e acrescenta: “Se eles, quando são malvados, não fossem tolerados com paciência, não chegariam à mudança louvável”.
O campo é o mundo e a História, onde coexistem o trigo e o joio. É, também, o coração de cada um, capaz de escolher o bem e o mal; é o lugar onde o Senhor semeia, continuamente, a semente da sua graça: semente divina que, ao arraigar nas almas, produz frutos de santidade. Com que amor Jesus nos dá a sua graça! Para Ele, cada homem é único, e, para redimi-lo, não vacilou em assumir a nossa natureza humana.
A parábola não perdeu a atualidade: muitos cristãos dormiram e permitiram que o inimigo semeasse a má semente, na mais completa impunidade; surgiram erros sobre quase todas as verdades da fé e da moral.
É necessário que vigiemos dia e noite, e não nos deixemos surpreender; que vigiemos para podermos ser fiéis a todas as exigências da vocação cristã, para não deixarmos prosperar o erro, que leva, rapidamente, à esterilidade e ao afastamento de Deus. É necessário que vigiemos, sobretudo, o nosso coração, sem falsas desculpas de idade ou de experiência, pois ” o coração é um traidor, e tem que estar fechado a sete chaves” (Caminho, 188).
Diz Jesus: “o joio são os filhos do Maligno, e o inimigo, que o semeou, é o diabo” (Mt 13, 39). O inimigo de Deus e das almas sempre lançou mão de todos os meios humanos possíveis. Vemos, por exemplo, que ora se desfiguram umas notícias, ora se silenciam outras; ora se propagam ideias demolidoras sobre o casamento, por meio dos seriados de televisão de grande alcance, ora se ridiculariza o valor da castidade e do celibato; defende-se o aborto ou a eutanásia, ou se semeia a desconfiança em relação aos Sacramentos e se dá uma visão pagã da vida, como se Cristo não tivesse vindo redimir-nos e lembrar-nos que o Céu nos espera. E tudo isso com uma constância e um empenho incríveis. O inimigo não descansa!
A parábola constitui, pois, um convite universal à vigilância, a não deixar passar em vão a hora da graça e a estar preparados para a ceifa, porque tal como o joio é apanhado e queimado, no fogo, assim será no fim do mundo”. Então, “todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal, serão lançados na fornalha de fogo, enquanto os justos brilharão como o sol no Reino de Seu Pai” (Mt 13, 40-43).
A abundância do joio só pode ser enfrentada com maior abundância de boa doutrina: vencer o mal com o bem (Rm 12, 21), com o exemplo da vida e a coerência da conduta. O Senhor nos chama para que procuremos a santidade no meio do mundo, no cumprimento dos deveres cotidianos.
O joio e o trigo estão presentes em toda parte: Mesmo em nossas comunidades cristãs vemos presente tanto joio de desunião, de inveja, de fofocas…
Fiquemos atentos, pois dentro de cada um de nós há trigo e joio! Peçamos ao Senhor para que sejamos trigo de amor, dedicação e colaboração. Que seja afastado de nós o joio de ódio, da discórdia, da calúnia…
É preciso saber valorizar a semente de trigo presente no coração de cada pessoa; cultivá-la com paciência e profundo respeito. Respeitar o processo de amadurecimento de cada pessoa, usando de paciência.
Para que possamos transformar o joio em trigo, devemos ser a semente de mostarda, pequena, insignificante, mas que cresce até aninhar os pássaros, em seus ramos. Devemos ser o fermento, que leveda toda a massa da farinha, o mundo em que vivemos…
O fermento é, também, figura do cristão! Vivendo no meio do mundo, sem se desnaturalizar, o cristão conquista, com o seu exemplo e com a sua palavra, as almas para o Senhor. Ensinava São Josemaria Escrivá: “A nossa vocação de filhos de Deus, no meio do mundo, exige-nos que não procuremos apenas a nossa santidade pessoal, mas que vamos pelos caminhos da terra, para convertê-los em atalhos que, através dos obstáculos, levem as almas ao Senhor; que participemos, como cidadãos normais e correntes, em todas as atividades temporais, para sermos levedura que há de fermentar toda a massa” (Cristo que passa, nº 120).
Somos convidados a imitar a misericórdia do Pai -celeste, aceitando, pacientemente, as dificuldades provenientes da convivência com os inimigos do bem, e tratá-los com bondade fraterna na esperança de que, vencidos pelo amor, mudem de comportamento. Deve-se recorrer, também, à oração, para que o Senhor defenda os seus filhos de serem contagiados. “Que o Espírito Santo venha em auxílio de nossa fraqueza, pois não sabemos o que pedir… É que o Espírito intercede pelos cristãos de acordo com a vontade de Deus” (Rm 8, 26-27). Há que deixar em Suas mãos a causa do bem!
Deus é lento para a ira e rico de misericórdia, e deseja que o pecador se converta e viva, dando todas as oportunidades para cada um refazer a existência e entrar no Reino. Um plano de salvação oferecido, gratuitamente, a todos. Deus não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão, e, por isso, convida ao arrependimento. Como um Pai cheio de amor, procura ajudar a perceber a loucura que é escolher o mal. Nesse mundo, não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro. Mal e bem misturam-se no mundo e no coração de cada um de nós. O que Jesus diz é muito claro: não julgueis, não condeneis. Julgamos, condenamos e rotulamos. E a ação da graça, a conversão e a santificação? Não cremos nisso? Enquanto está vivo, pode ser mudado e estar bem, melhor do que eu.
Condenar o pecado, sim; mas, amar o pecador. Isso não significa colaborar com o mal, ser passivo diante do mal, nem chamar de verdade o que é mentira ou erro. Mas, lembremos sempre: até o final, Deus quer ser mais médico que juiz. Ele não permitiria o mal, se não fosse para tirar bens maiores.
Deus dá a cada um toda uma vida para crescer, converter-se e santificar-se. Como um doente não é ainda um cadáver, não há pecador que não possa ser santo, malvado que não possa se converter em bom, e não há ninguém livre de cometer os piores pecados. Lembremo-nos dos exemplos clássicos de São Paulo e de Santo Agostinho. Deus dá a cada um a possibilidade de mudar de vida e de ser santo.
O dono do campo, quando for fazer a colheita, no fim dos tempos, saberá separar o bom trigo da palha e das ervas daninhas. A tarefa de separar é dele: não julgueis! Nossa tarefa é semear: Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15).
Peçamos à Virgem Maria, a fim de que nos ajude a seguir fielmente Jesus e, desse modo, a viver como verdadeiros filhos de Deus.
Dom José Maria Pereira
