Ascensão: Pensar no Céu!
Dom José Maria Pereira
Hoje celebramos o mistério conclusivo da vida de Jesus: sua Ascensão ao Céu. É a sua entrada oficial na glória que lhe correspondia como ressuscitado, depois das humilhações do Calvário! É a volta ao Pai anunciada por Si no dia de Páscoa; “ Eu subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). E aos discípulos de Emaús: “Não era necessário o Cristo sofresse tudo isso, para entrar em sua glória?” (Lc 24,26). “Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e sentou – se à direita de Deus. Então, os discípulos foram anunciar a Boa Nova por toda parte…” (Mc 16, 19 ss). A comunidade cristã é convidada a dirigir o olhar para Aquele que, quarenta dias depois da sua Ressurreição, entre a admiração dos Apóstolos “ elevou-se à vista deles, e uma nuvem o ocultou aos seus olhos” (At 1, 9). Portanto, somos chamados a renovar a nossa fé em Jesus, a única âncora verdadeira de salvação para todos os homens. Subindo ao Céu, Ele abriu de novo o caminho rumo à nossa pátria definitiva, que é o Paraíso. Agora, com o poder do seu Espírito, Ele nos ampara na peregrinação quotidiana na Terra.
“Elevou-se à vista deles” (At 1, 9). O significado deste último gesto de Cristo é duplo. Em primeiro lugar, “elevando – se”, Ele revela de modo inequívoco a sua divindade; volta para lá, de onde veio, isto é, para Deus, depois de ter cumprido a sua Missão na Terra. Além disso, Cristo sobe ao Céu com a humanidade que assumiu e que ressuscitou dos mortos: aquela humanidade é a nossa, transfigurada, divinizada, que se tornou eterna. Portanto, a Ascensão revela a “altíssima vocação” (Gaudium et Spes, 22) de cada pessoa humana: ela está chamada à vida eterna no Reino de Deus, Reino de amor, de luz e de paz.
A vida de Jesus, na terra, não termina com a sua morte na Cruz, mas com a Ascensão aos céus. É o último mistério da vida do Senhor aqui na terra. É um mistério redentor, que constitui, com a Paixão, a Morte e a Ressurreição, o mistério pascal. Convinha que os que tinham visto Cristo morrer na Cruz, entre os insultos, desprezos e escárnios, fossem testemunhas da sua exaltação suprema.
E eles “Continuavam olhando para o Céu, enquanto Jesus subia” (At 1, 10). Estavam, portanto, fixando o Céu, porque acompanhavam com o olhar Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, que era elevado ao Céu. Somos chamados, permanecendo na Terra, a fixar o Céu, a orientar a atenção, o pensamento e o coração para o Mistério inefável de Deus. Somos chamados a olhar, na direção da realidade divina, para a qual o homem está orientado desde a criação. Ali está contido o sentido definitivo da nossa vida.
Comentando sobre a Ascensão, ensina São Leão Magno: ”Hoje não só fomos constituídos possuidores do paraíso, mas com Cristo ascendemos, mística mais realmente, ao mais alto dos céus, e conseguimos por Cristo uma graça mais inefável que a que havíamos perdido.” A Ascensão fortalece e estimula a nossa esperança de alcançarmos o Céu e incita-nos constantemente a levantar o coração a fim de procurarmos as coisas que são do alto. Agora a
nossa esperança é muito grande, pois o próprio Cristo foi preparar-nos uma morada. O Senhor está já no Céu com o seu Corpo glorificado, com os sinais do seu Sacrifício redentor, com as marcas da Paixão que Tomé pôde contemplar e que clamam pela salvação de todos nós.
A Ascensão apresenta-se-nos, assim, não tanto como uma festa da partida de Jesus deste mundo quanto como a festa de sua permanência aqui na terra. Ele, com efeito, não deixou este nosso universo. “Não abandonou o céu quando de lá desceu até nós e nem se afastou de nós quando novamente subiu ao céu. Ele é exaltado acima dos céus: todavia, sofre aqui na terra todos os dissabores que nós, seus membros, suportamos. Disto deu testemunho
gritando: Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Santo Agostinho). Cristo está ainda presente e comprometido com este mundo com todo seu corpo que é a Igreja.
Dizia São Josemaria Escrivá: “Somos cidadãos do Céu. De lá aguardamos como salvador o Senhor Jesus Cristo (Fil 3,20), sendo plenamente cidadãos da terra, no meio das dificuldades, das injustiças, das incompreensões, mas também no meio da alegria e da serenidade que nos dá sabermo-nos filhos amados de Deus. E se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos céus nos deixar na alma um travo de tristeza, recorramos à sua Mãe, como fizeram os apóstolos: Tornaram então a Jerusalém… e oravam unanimemente… com Maria, a Mãe de Jesus (At 1,12-
14 ) .”
A esperança do Céu encherá de alegria o nosso peregrinar diário. Imitaremos os apóstolos que, segundo São Leão Magno, “tiraram tanto proveito da Ascensão do Senhor que tudo quanto antes lhes causava medo, depois se converteu em alegria. A partir daquele momento, elevaram toda a contemplação das suas almas à divindade que está à direita do Pai; a perda da visão do corpo do Senhor não foi obstáculo para que a inteligência, iluminada pela fé acreditasse que Cristo, mesmo descendo até nós, não se tinha afastado do Pai e, com a sua Ascensão, não se separou dos seus discípulos.”
O pensamento do Céu ajudar – nos- á a superar os momentos difíceis. É muito agradável a Deus que fomentemos esta esperança teologal, que está unida à e ao amor, e que, em muitas ocasiões, ser-nos-á especialmente necessária. “À hora da tentação, pensa no Amor que te espera no Céu. Fomenta a virtude da esperança, que não é falta de generosidade” (Caminho, 139).
A meditação sobre o Céu deve também estimular-nos a ser mais generosos na nossa luta diária “porque a esperança do prêmio conforta a alma para que empreenda boas obras” (São Cirilo de Jerusalém). O pensamento desse encontro definitivo de amor, a que fomos chamados, ajudar-nos-á a estar mais vigilantes nas nossas tarefas grandes e nas pequenas, realizando-as de um modo acabado, como se fossem as últimas antes de irmos para o Pai.
O pensamento do Céu, ao celebrarmos a festa da Ascensão, deve levar-nos a uma luta decidida e alegre por tirar os obstáculos que se interpõem entre nós e Cristo; deve estimular – nos a procurar, sobretudo, os bens que perduram e a não desejar a todo custo as consolações que acabam.
Com a Ascensão, termina a missão terrena de Jesus e começa a dos seus discípulos, a nossa: “Vós sois as testemunhas destas coisas” (Lc 24,48), diz Jesus. Portanto, a festa de hoje recordanos que o zelo pelas almas é um mandamento amoroso do Senhor. Ao subir para a sua glória, Ele nos envia pelo mundo inteiro como suas testemunhas. Grande é a nossa responsabilidade, porque ser testemunhas de Cristo implica, antes de mais nada, procurar comportar-se segundo a sua doutrina, lutar para que a nossa conduta recorde Jesus e evoque a sua figura amabilíssima. Desde a Ascensão de Jesus até Sua Volta gloriosa, no fim dos tempos, os discípulos são enviados ao mundo para cristianizarem todas as pessoas e todos os ambientes. Cristo deve ser anunciado, para ser conhecido e amado.
Jesus parte, mas permanece muito perto de cada um. Nós O encontramos na Eucaristia, no Sacrário de nossas Igrejas.
Visitemos mais Jesus no Sacrário, à nossa espera! Não deixemos de procurá-Lo com frequência, ainda que, na maioria das vezes, só possamos fazê-lo com o coração, para dizerLhe que nos ajude na tarefa apostólica, que conte conosco para estender a Sua doutrina por todos os ambientes.
Nesta semana, que precede a Solenidade de Pentecostes, fiquemos unidos em oração, como disse Jesus: “Permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto” (Lc 24,49). Assim, a vida da Igreja não começa com a ação, mas com a oração, junto com Maria, a Mãe de Jesus.
A festa de hoje nos fortalece a esperança pelo destino que nos aguarda, mas também nos lembra que a nossa missão, hoje, é continuar o projeto de Jesus. Não fiquemos de braços cruzados, parados, olhando para o Céu! É hora de olhar ao nosso redor e começar a Missão!
A Ascensão proporciona-nos a oportunidade de ascender em cada ano com mais claridade a grande certeza de nossa vida: Jesus está vivo e está ainda conosco! E nossa maior esperança: nós iremos a Ele para ir junto ao Pai!
“Esse Jesus que, do meio de vós, foi elevado ao Céu, virá assim, do mesmo modo como O vistes partir para o Céu” (At 1,11). Diz Santo Agostinho: “Quem é esse que sobe? O mesmo que desceu. Desceu para me sarar e subiu para me elevar. Se me elevo sozinho, caio. Se me levantais, permaneço elevado. A Vós, que Vos elevais, digo: sois a minha esperança. Vós, que subis, sede o meu refúgio (Sermões, 261, 1). Celebramos a Ascensão do Senhor e preparamo-nos para receber o grande dom do Espírito Santo. Vimos no Livro dos Atos dos Apóstolos 1, 12-14, como a comunidade apostólica se reunira em oração no Cenáculo com Maria, a Mãe de Jesus. Este é um retrato da Igreja cujas raízes assentam no evento pascal: de fato, o Cenáculo é o lugar onde Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio na Última Ceia, e onde, ressuscitado dos mortos, efundiu o seu Espírito sobre os Apóstolos ao entardecer do dia de Páscoa (Jo 20, 19-23). O Senhor ordenou aos seus discípulos que “não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a Promessa do Pai” (At 1, 4), isto é, pedira que permanecessem juntos, preparando-se para receber o dom do Espírito Santo. E eles reuniram-se em oração com Maria, no Cenáculo, à espera do acontecimento prometido (At 1, 14). Permanecer juntos foi a condição que Jesus pôs para acolherem a vinda do Paráclito, e a prolongada oração foi o pressuposto da sua concórdia. Aqui, encontramos uma bela lição para cada comunidade cristã. Às vezes, pensa-se que a eficácia missionária dependa principalmente de uma cuidadosa programação e da sua realização inteligente através de um compromisso concreto. O Senhor pede certamente a nossa colaboração, mas, antes de qualquer resposta da nossa parte, é necessária a sua iniciativa: o verdadeiro protagonista é o seu Espírito, que se deve invocar e acolher. “Verdadeiramente o Espírito Santo é o protagonista de toda a missão eclesial. Pela sua ação a Boa Nova ganha corpo nas consciências e nos corações humanos, expandindo-se na história. Em tudo isto, é o Espírito Santo que dá a vida” (São João Paulo ll, Carta Encíclica Redemptoris Missio, n. 21).
Os discípulos partiram (diz o Evangelho em Mc 16,20) e pregaram a Boa Nova por toda parte. Vamos nós também com humildade, sabendo em que vasos nós carregamos esta esperança, mas vamos com coragem! Esta é a missão da Igreja: continuar até o fim dos tempos a obra de Cristo, ensinar os povos as verdades sobre Deus e sobre o homem, fazendo discípulos e santificando, através dos sacramentos, para que todos cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem. E é dever de cada cristão anunciar Jesus Cristo.
Na Ascensão, Jesus desaparece da vista dos Apóstolos, mas está presente de outra forma. Inaugurou-se uma presença nova, mais íntima e forte. Agora vemos pela fé: na leitura e meditação do Evangelho, na vida de oração, nos Sacramentos e na Igreja. Acontece como na Eucaristia: fora de nós a vemos e adoramos; quando a recebemos, já não vemos, mas está dentro de nós.
A Ascensão não é apenas o fundamento da nossa esperança de sermos, ao final, reunidos com Cristo no Céu, mas é um estímulo a agir para transformar o mundo segundo o plano de Deus. Ascensão! Pensar no Céu dá uma grande serenidade. Nada aqui na terra é irreparável, nada é definitivo, todos os erros podem ser retificados. O único fracasso definitivo seria não acertarmos com a porta que conduz à Vida. Ali nos espera também a Santíssima Virgem. Hoje, nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao Céu; suba, também, com Ele, o nosso coração” (Santo Agostinho).
Supliquemos à Virgem Maria, para que nos ajude a contemplar os bens celestes, que o Senhor nos promete, e a tornar – nos testemunhas, cada vez mais credíveis, da sua Ressurreição, da sua verdadeira Vida! Dirigindo o olhar para Maria, como os primeiros discípulos, somos imediatamente inseridos na realidade de Jesus: a Mãe remete para o Filho, que deixou de estar fisicamente entre nós, mas aguarda-nos na casa do Pai. Jesus convida-nos a não permanecer a olhar para o alto, mas a estar juntos, unidos na oração, para invocar o dom do Espírito Santo. De fato, só quem “renasce do alto”, isto é, do Espírito de Deus, está aberto à entrada no Reino dos Céus (Jo 3, 3-5), e a primeira, “renascida do alto”, é a Virgem Maria. Portanto, a ela nos dirigimos na plenitude da alegria pascal.
Dom José Maria Pereira
