(Pe. Matheus Pigozzo)
No silêncio desse dia, a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, nos chama a celebrar e contemplar o mistério da Cruz de Jesus. “Quando eu for levantado da terra, atrairei a mim todo ser” (Jo 12,32), disse o Senhor. Atraído está nosso olhar, envolvido pela tensão do momento e pelo incompreensível mistério do amor que dá a vida, e Deus quer que não só o nosso olhar, mas todo o nosso ser seja atraído a si.
Entrando na cena da crucifixão, no alto do Calvário, podemos nos meter entre os expectadores, nos achegando o mais perto possível do nosso Jesus, e inevitavelmente nossa visão enxerga três crucificados, conforme os relatos bíblicos. Fazia parte da humilhação imposta ao Senhor não só sofrer o suplício dos ladrões, irreverentes e imorais, mas ser apresentado como um entre eles. A troça romana estava perfeita, o desprezo do sinédrio havia conseguido o desfecho desejado. Mas, a cena, para quem está atento, providencialmente traz seu ensinamento e provocação.
Os malfeitores provavelmente eram agitadores do grupo de Barrabás que havia se insurgido com violência e sem bons critérios contra o poder Romano. Homens que acreditavam que os fins justificavam os meios. Eram pessoas que fizeram o pensamento político estar acima da verdade e o desejo de prosperidade estar acima da religião. Junto de Jesus eles estavam, pois, as falsas acusações contra o Mestre eram d’Ele ser um agitador do povo contra os poderes civis. A tradição transmitiu-nos os nomes desses crucificados – eram Dimas e Gestas.
Gestas, o mau ladrão, mostra o nível do endurecimento que pode chegar um coração pecador. Mesmo vendo um justo ser maltratado e transbordar bondade e perdão, Gestas prefere o deboche e sarcasmo do que a reflexão e a ponderação. Achando forças em seu suplício grita com ironia – “Se és o Cristo Salva-te a ti mesmo e a nós!” (Lc 23,39). O pecado cultivado e aderido, prende de tal modo o homem à terra que nem diante da morte ele reflete sobre seus atos. O céu, para o dominado pelo mau, é um conto para crianças, do qual se despreza e se faz piada. Gestas, em suas últimas palavras mostra no que ele crê. A religião para Gestas teria seu valor se pudesse dar vida terrena para ele, a fim de continuar seus assuntos mundanos e sua busca de poder e prazeres momentâneos. O sofrimento de Gestas o aprofunda em seu materialismo e não é ocasião de pensar no além, na gravidade de suas escolhas nas consequências de seus atos e no mundo que há de vir.
Do outro lado, está o bom ladrão. Dimas foi abaixando a guarda diante da bondade de Jesus frente aos sofrimentos. De fato, a paciência perante à dor revela a estatura moral e maturidade de quem sofre. Dimas percebeu que estava diante de um Rei espiritual, conseguiu ver que o letreiro com intenção provocativa feito por Pilatos contra os sumos sacerdotes – “Jesus Nazareno, rei dos judeus” (Jo 19,19) – continha uma verdade e ele poderia de fato estar ao lado do chefe do reino Messiânico anunciado pelas Escrituras. Dimas tem uma postura diferente de Gestas ao experimentar o sofrimento. A certeza da finitude da vida, fez Dimas ver que não a viveu com dignidade. O Bom ladrão, em suas últimas palavras, no seu último momento, fez o movimento mais importante da vida: primeiro o reconhecimento de sua pequenez e miséria – “nós merecemos o castigo” (Lc 23,41), diz ele a seu confrade malfeitor – e, depois, a abertura a Deus confiando na misericórdia – “Lembra-te de mim quando estiveres em teu Reino” (Lc 23,42). Jesus responde o que todos os crentes esperam ouvir na hora derradeira – “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” (Lc 23,43). Dois eram os condenados no reino do Messias, e um foi absolvido, podiam ser os dois, mas só um se arrependeu e pediu perdão.
Gestas e Dimas podem ser imagens do caminho da humanidade. Todos somos do mesmo barro. Basta examinarmos nossa consciência e veremos que podemos dizer junto com Dimas – “merecemos o castigo”. Sim, porque a desobediência a Deus Altíssimo e Criador, é tão injusta que sua pena é a morte eterna. Mas, Gestas e Dimas abrem dois caminhos para todos nós malfeitores, caminhos que podemos escolher.
A nossa sociedade tem se denominado, sem escrúpulos, como sociedade “pós-cristã”. Já virou a cultura vigente a postura de Gestas. Como que numa correnteza caudalosa os homens têm tratado a fé com deboche e cinismo. Muitas vezes, até nós cristãos, somos iludidos pelo materialismo e acabamos tentados só a aceitar uma religião que nos tire pesos pessoais e emocionais, e nos dê mais da vida terrena. Quando se descobre que o caminho da salvação passa pela cruz, o grito de Gestas vem à nossa garganta – “desce da cruz e salva a ti e a nós!” (Cf. Lc 23,35). Mesmo tendo um Deus crucificado, não vemos sentido no sofrimento e seu poder salvífico. No fundo, a postura de Gestas é a ingratidão. Ao decidir por confeccionar regras morais próprias, ditar sobre o certo e errado, o que é grave ou não e diluir as exigências do Evangelho, nós declaramos a revelação de Deus um mito e tratamos Deus amoroso e bom com indiferença petrificada. O caminho de Gestas também é trilhado quando vemos os outros como rivais, quando justificamos a falta de caridade e perdão.
O outro caminho é o de Dimas! Dimas permite que a consciência da finitude da vida e a presença de Cristo gere uma reviravolta em seu interior. Seguimos a estrada de Dimas quando não ficamos indiferentes à pregação e nem à gravidade do pecado. Dimas mostra que para estar no Reino de Cristo não podemos nos apegar ao desejo de ser aceitos por todos. Dimas não teme se separar do pensamento de Gestas até então seu companheiro de mentalidade e crimes, e se declarar seguidor de Jesus. Não teme a reprovação do amigo de bando, nem os deboches dos guardas e nem os julgamentos dos expectadores. Diz que quer o Reino que julgam ser uma fábula. Estar na trilha de Dimas, é não desculpar nossos erros, mas reconhecê-los. É sabermo-nos necessitados de resgate e confiar na misericórdia de Deus. Dimas nos dá a aula maior de nossa existência: a falsa liberdade do mundanismo, as agitações das ideologias políticas, filosóficas ou comportamentais, as promessas da irreligião não levam o homem se não ao vazio e à decepção. Somente a cruz, somente atados à ela, somente amando-a é que somos verdadeiramente livres. Só dando a vida, desapegando de si, da própria excelência e autossuficiência, só se abrindo a Deus é que o homem se torna feliz, se torna cidadão do Reino que jamais terá fim.
“Lembra-te de mim quando estiveres em teu Reino”, Dimas interpela Jesus como um indigente, mas Jesus o responde como o Deus-Rei – “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Dimas pediu que fosse lembrado, Jesus diz que ele será habitante. Deus ama o ser humano e quer muito estar com ele. Com toda certeza, a nossa matemática parece não compreender a resposta de Jesus. Pelos seus atos de toda uma vida, Dimas merecia o castigo, mas, seu verdadeiro arrependimento de um instante imerso no Coração de Cristo, mereceu a absolvição e a vida! Frente a essa misericórdia incalculável, com toda certeza Dimas sentiu o que seria expresso por Santo Agostinho séculos depois – “tarde te amei, beleza antiga e tão nova”. A alegria da absolvição de Dimas não pôde dispensar essa dor de amor – quão tarde descobri seu amor! Quanto tempo perdi agarrado a minhas ideias, com más companhias, com desejos passageiros. Tarde! Tarde! Tarde! Por que não me abri antes a esse amor avassalador que me preenche agora na cruz! No entanto, diríamos a Dimas, tarde, mas não tarde demais. Vai Dimas, e entre na alegria de seu Senhor. Nesse novo tempo não tem horas nem minutos, só tem um presente interminável com o Rei dos reis que você conseguiu encontrar.
Na Celebração de hoje o Espírito Santo nos leva diante da Cruz de Jesus. Temos o privilégio de beijar o crucificado. Dentro de nosso coração se encontram Gestas e Dimas, nossa prece seja que orgulho de Gestas em nós morra e o arrependimento humilde e confiante de Dimas cresça.
Maria ouviu no Calvário tanto Gestas como Dimas, também os ouve dentro de nós, seguremos na mão dela para que adorando a cruz cheguemos à glória da Ressurreição.
Pe. Matheus Pigozzo
