SOLIDÃO E MAL-ESTAR DO SACERDOTE
Solidão ou solidões?
A solidão não é, em si mesma, um mal. Pelo contrário, manifesta a verdade do ser humano como criatura necessitada do Absoluto; o sofrimento que isso comporta, se aceito como verdade de si mesmo e não como maldição, pode permitir viver relações sólidas e profundas: em primeiro lugar, a relação com o Senhor, porque se reconhece que sem Ele a vida se torna insuportável e carece de sentido.
De fato, há uma dimensão de solidão em todo estado de vida, como bem sabem os esposos: um vazio ontológico que nada nem ninguém pode preencher. Essa impossibilidade, se não for aceita, pode levar a investimentos ilusórios no outro, a pretensões irrealizáveis e ao fracasso da relação. É significativo que a crise do celibato e a crise do matrimônio tenham surgido juntas.
A solidão torna-se inquietante quando a pessoa se afasta de seu eu mais profundo, privando-se de relações significativas, perdendo-se nas coisas a fazer, nas conversas superficiais do momento, nos vícios…, esperando que isso preencha o vazio que a atormenta. Tudo isso também vale para quem, como o sacerdote, é chamado a uma vida de celibato. A solidão possui múltiplos aspectos, que podem torná-la desejável ou temível. Daí a importância de compreender como e quando, partindo de uma condição de verdade, ela pode tornar-se tóxica.
Algumas mudanças fundamentais
Em primeiro lugar, há razões estruturais: a perda de pontos de referência, de possíveis lugares e tempos de encontro, a redução e o envelhecimento das comunidades. O Papa Francisco, em um discurso à Cúria Romana, afirmou que nos encontramos em uma situação de pós-cristianismo, da qual talvez ainda não tenhamos plena consciência: «Já não estamos na cristandade. […] Precisamos de uma mudança de mentalidade pastoral, o que não significa passar a uma pastoral relativista. Já não estamos em um regime de cristandade, porque a fé — especialmente na Europa, mas também em grande parte do Ocidente — já não constitui um pressuposto óbvio da vida comum; pelo contrário, frequentemente é negada, ridicularizada, marginalizada».
A dissolução do tecido social vem acompanhada da falta de figuras adultas de referência e de um sentimento de isolamento acentuado pela recente pandemia de Covid-19. Daí o aumento da fragilidade das pessoas, em todos os níveis.
Outra razão estrutural do mal-estar é a crescente burocratização e complexidade da vida.
A isso se acrescenta a revolução digital e o advento das redes sociais, especialmente entre as gerações mais jovens, nas quais a capacidade de utilizar as novas tecnologias nem sempre vem acompanhada de um adequado senso crítico, sobretudo quando se busca nelas um remédio para a solidão. A internet, com sua enorme oferta de possibilidades — informação, dados, rapidez de contato e inegáveis oportunidades pastorais —, recoloca os antigos problemas do mundo offline (solidão, falta de sentido, sofrimento, depressão), mas em escala qualitativamente distinta.
Assim, como no relato A Metamorfose, de Franz Kafka, pode acontecer que o sacerdote desperte um dia e descubra que se tornou algo completamente diferente do que havia imaginado: um assistente social, um prestador de serviços e bens materiais de diversos tipos, ou até vítima de desvios que estudou nos livros de teologia, mas dos quais não foi capaz de se proteger. Com resultados, por vezes, trágicos.
Alguns dados
Há algum tempo, observa-se um aumento impressionante de suicídios entre sacerdotes no Brasil. Em 2018, 17 sacerdotes tiraram a própria vida; em 2021, outros 10.
Já em 2008, uma pesquisa realizada pela organização Isma Brasil, com entrevistas a 1.600 sacerdotes, religiosos e religiosas, indicava que a principal causa de estresse na vida religiosa era a ausência de privacidade, de tempo e de espaço adequados para o autocuidado. A Conferência Episcopal do Brasil também iniciou investigações. Entre os fatores apontados pelos especialistas estavam o excesso de trabalho, a falta de lazer, a solidão e a perda de motivação. Também pesam acusações de abusos.
Das entrevistas, contudo, emergiu que o problema mais comum é a depressão: um jovem sacerdote, em um país como o Brasil — onde pode enfrentar muito, até excessivo, trabalho pastoral —, pode desenvolver uma atitude hiper-responsável, que facilmente desemboca em ativismo; este, por sua vez, transforma-se em estresse, depois em ansiedade e depressão. E frequentemente ele está sozinho e não consegue cuidar de si mesmo.
A falta de intimidade parece ser uma das características mais difundidas do mal-estar sacerdotal. Na França, em 2020, foi apresentado um estudo financiado pela Conferência Episcopal Francesa e pela Mutualité Saint Martin sobre a saúde dos 6.400 sacerdotes diocesanos com menos de 75 anos em atividade nas 105 dioceses do país. Mais de 50% responderam ao questionário.
A maioria (70%) trabalha em áreas urbanas; 30% em zonas rurais. A carga média de trabalho é de 9,4 horas diárias. Muitos percorrem longas distâncias mensalmente. Alguns não têm dias de descanso. Em quatro anos, registraram-se sete suicídios de sacerdotes na França.
Destaca-se sobretudo uma situação de isolamento: 54% vivem sozinhos. 20% apresentam sintomas depressivos; 9% sofrem depressão moderada; 3% moderada a grave. Dois terços participam de grupos de apoio ou recebem acompanhamento espiritual. A ajuda percebida de amigos e familiares é significativa; a da hierarquia, menor.
Embora 93,3% afirmem sentir-se “bem” ou “razoavelmente bem”, 40% relatam baixa realização pessoal e mal-estar em relação à hierarquia, muitas vezes por questões de gestão. Dois em cada cinco têm problemas com álcool; 8% são dependentes. Cerca de 2% sofrem burnout grave.
Estudos semelhantes na Itália, como o realizado em Pádua em 2005, apresentam resultados parecidos: um grupo significativo sente-se esgotado, com altos níveis de depressão e baixa realização pessoal.
Algumas possíveis causas
Entre as causas do mal-estar, destaca-se o burnout, muitas vezes descrito como excesso de compromissos, complexidade dos problemas e sentimento de ser “funcionário do sagrado”, prestando serviços assépticos a fiéis indiferentes.
Outros mencionam a negligência da vida interior e o consequente vazio afetivo, que leva a perceber o celibato como peso. Também a formação recebida pode contribuir: enfatiza-se demasiadamente a entrega aos outros, em detrimento do cuidado pessoal e da criação de um clima de comunhão e amizade.
Pesquisas mais recentes confirmam:
- Um crescente sentimento de inadequação diante dos desafios atuais, agravado pela burocratização.
- O burnout, marcado por “despersonalização”: relações vividas sem participação emocional.
- A solidão ministerial, sobretudo entre os mais jovens, vinculada à falta de fraternidade presbiteral real.
Cria-se um círculo vicioso: o burnout reduz a atratividade da vocação; a diminuição das vocações aumenta a sobrecarga dos que permanecem.
Sozinhos por escolha?
Embora o sofrimento raramente surja de modo repentino, muitos sacerdotes mostram resistência em pedir ajuda. Alguns nunca cultivaram verdadeira amizade fraterna; outros preferem a solidão por medo de julgamento. A solidão torna-se, assim, forma de proteção da intimidade.
Questiona-se se certo modelo formativo, que apresenta o ministério como aventura solitária, não contribui para isso. A própria expressão “fazer-se sacerdote” pode sugerir uma autorreferencialidade que distancia o presbítero da comunidade cristã.
Uma visão excessivamente sacralizada do sacerdote — em vez de compreendê-lo como pecador perdoado — também pode dificultar a expressão de fragilidades e a construção de vínculos autênticos.
Um problema estrutural?
Surge então a pergunta: a própria instituição favorece, ainda que involuntariamente, essa tendência? Se assim for, o mal-estar sacerdotal não é apenas pessoal, mas estrutural, exigindo mudanças estruturais.
As ciências humanas confirmam que sentir-se parte de uma comunidade é fator decisivo de proteção. Uma vida solitária, ainda que sobreprotegida, mas carente de vínculos profundos, é prejudicial à saúde.
Muitas empresas já perceberam a relação entre qualidade de vida, serenidade pessoal e qualidade do trabalho. Enfrentar essa questão na Igreja é dever evangélico.
Algumas propostas
Sem ignorar os muitos sacerdotes que vivem seu ministério com alegria, é necessário atenção especial aos que sofrem.
Entre as propostas:
- Combater a solidão, inclusive melhorando as condições de moradia.
- Criar centros diocesanos de apoio socio-sanitário.
- Instituir supervisores pastorais e mediadores.
- Incentivar facilitadores de comunhão e fraternidade.
- Reformar a formação nos seminários, favorecendo vida comunitária real.
- Promover formação permanente consistente.
- Incentivar acompanhamento espiritual.
- Integrar contribuições das ciências humanas na formação.
O tema da fragilidade deve ser enfrentado com clareza. A primeira tentação é considerá-la maldição a eliminar, e não canal privilegiado da graça. Henri Nouwen cunhou a expressão “curador ferido”: aquele que pode curar através das próprias feridas assumidas.
A fragilidade aceita permite relações verdadeiras, marcadas por misericórdia e compaixão. Não é uma visão idealizada de perfeição que torna o ministério crível, mas a humanidade compartilhada com um Deus que, em Cristo, assumiu plenamente nossa condição.
Publicado em La Civiltà Cattolica, 2023.

